Passa já da hora o vosso despertar espiritual . . . Saiba que a tua verdadeira pátria é no mundo espiritual . . . Teu objetivo aqui é adquirir luzes e bênçãos para que possas iluminar teus caminhos quando deixares esta dimensão, ascender e não ficar em trevas neste mundo de ilusão . . .   Muita Paz Saúde Luz e Amor . . . meu irmão . . . minha irmã

domingo, 16 de fevereiro de 2014

CAPÍTULO X – Livro: Vida de Jesus ditada por ele mesmo O Messias define sua personalidade. Os Messias são sempre originários do mundo em que desempenham sua elevada missão. Os apóstolos não estavam à altura dos fins que tal missão implicava, como também não compreenderam realmente os ensinamentos de Jesus.



A demonstração de minha personalidade, irmãos meus, exige a confidência de meus sofrimentos íntimos como homem, e de minhas alegrias espirituais como espírito.

Tenho também que precisar a diferença que existe entre minha revelação anterior e minha revelação atual. Atribuamos a Jesus homem as paixões do homem; atribuamos a Jesus mediador a calma bebida no seio das instituições divinas, a força do sacrifício, a resignação do mártir; atribuamos a Jesus homem os impulsos do coração para as atrações da natureza humana; atribuamos a Jesus mediador a força repulsiva contra toda a impureza. Atribuamos a Jesus homem o desgosto para com a humanidade perversa e covardemente delinqüente; mas vejamos a Jesus mediador proclamando-se o irmão e amigo dos culpados, o consolador dos aflitos, o amparo dos desgraçados, a arca aberta dos pobres, o consolo de todos os arrependidos.

Coloquemos neste livro, sob os olhos do leitor, a dupla condição de Jesus como espírito elevado e como criatura carnal, para fazer compreender bem a laboriosa coragem do espírito em luta com a matéria, e livremos a justiça divina das trevas com que a rodeou a ignorância humana, para elevar o espírito do homem à altura de nossa intervenção.

A natureza de Jesus, irmãos meus, é vossa própria natureza. O espírito de Jesus define a emancipação de uma criatura nova. O favor de Deus não existe, a denominação de privilegiado não tem sentido algum.¹

A desproporção das forças encontra-se na relação com a ancianidade e o trabalho de cada um. A dependência produz a dependência e a liberdade nasce de uma vitória definitiva da natureza espiritual sobre a natureza animal. A perfectibilidade faz-se mais rápida quando se consegue dominar a natureza animal; mas a perfeição encontra-se tão-somente em Deus, e todos os seres, tendo sido criados por Deus, têm direito a esta luz.

A decadência do espírito é apenas momentânea, pois a lei do progresso arrasta consigo todas as individualidades para um objetivo de engrandecimento, mediante o equilíbrio geral das criações. A indiferença e a depressão são ocasionadas pela dispersão e pelos contatos malsãos. Os mundos juvenis, como a Terra, entram no período de seu desenvolvimento moral quando a aproximação das idéias se produz com o regresso proveitoso dos espíritos desligados da matéria, aos quais se lhes deu a faculdade de retornar para acelerar os movimentos e a vida do espírito nas condições da escravidão humana. Os Messias não tornam já a ser chamados para a vida material; porém têm a suprema honra de dirigir aos pequenos Messias.

O número dos Messias aumenta progressivamente, de forma que eles, multiplicando-se, injetam por todas as partes, inoculam, espalham por todas as partes a luz, e o período de desenvolvimento, de que já falamos, se efetua forçosamente.

O avanço dos mundos indica o avanço das individualidades.

A energia, a luz espiritual, a ciência universal se amparam mutuamente e produzem o amor, a força, o sentimento religioso, a revelação. A desmaterialização do espírito se efetua com o desenvolvimento de sua razão. A natureza animal vai cedendo pouco a pouco ante a natureza espiritual, quando domina a razão e o progresso é notável. O progresso recebe maior força das luzes divinas quando o espírito alcança maior elevação, abandonando a sensualidade da matéria e acumulando honras sobre si mesmo pelo acordo da razão com a fé.

Aproximo-me de vós, irmãos meus, livre para sempre da natureza carnal, mas sofri, como vós, as humilhações e os desesperos de dita natureza, e se minha vida de Messias foi gloriosa em virtude das obras do Messias, as alianças, os desenganos do homem foram realmente cruéis. Minhas culpas me proporcionaram remorsos e os sofrimentos fizeram nascer em mim dúvidas e enganos. Se minha vida de Messias saboreou as delícias do amor humano em suas dependências espirituais, as ternas afeições do homem viram-se esmagadas sobre suas carnes e o espírito triunfou na luta, mas tão-somente depois de largos suplícios e feridas profundas.

Se, finalmente, a luz do Messias viu-se turbada pelas trevas da natureza humana, a luz do espírito pôde elevar-se acima delas, devido à sua completa liberdade a respeito dessas trevas e às forças progressivamente adquiridas no estudo das leis divinas.

Estabelecida a diferença existente entre minha revelação como Messias e minha revelação presente, continuemos a narração dos acontecimentos, reproduzindo-os aos homens sob seu verdadeiro aspecto. Pedro, em primeiro lugar, o mais ciumento de meus discípulos, me renegaria. Não era portanto completamente crente, desde o momento que negou sua aliança com Jesus. João, o mais terno de meus amigos, desnaturava minhas palavras e me apresentava como dotado de poderes sobrenaturais. Não estava por conseguinte dominado pela fé, visto que teve que empregar a fraude para honrar melhor diante de todos minha pessoa e engrandecê-la perante o espírito humano. Tiago, irmão de João, seguia o impulso que recebia de seu irmão, mais fanático que ele. André não era mais que uma pálida cópia de Pedro. Os dois Judas estavam em constante oposição, tanto sob o ponto de vista das idéias, quanto por sua mesma exterioridade. Judas, primo de Pedro, era tímido de espírito, de constituição débil, fácil de comover-se, predisposto a ser influenciado por todos os afetos, a imitar todas as virtudes, a humilhar-se diante de todas as superioridades; porém sem iniciativa e sem forças para lutar abertamente contra a adversidade. Judas, o que se chama ordinariamente Judas Iscariote, não tinha as aparências de uma natureza perversa, e devemos corrigir a opinião dos homens a respeito deste discípulo oprimido sob o peso de uma reprovação universal. Possa nosso juízo fazer penetrar nos espíritos essa terna piedade, que desculpa todos os extravios, esse desprezo pelas prevenções, que proporciona a sabedoria. Possa nosso juízo demonstrar a fraqueza dos juízos humanos, quando julgam de uma vida inteira pelo efeito de um só ato, ainda que este ato tenha sido delituoso. Judas era moreno e seus cabelos caíam naturalmente sobre seus ombros. Tinha a fronte larga, os olhos grandes e bem abertos, a tez pálida, as formas sem defeitos; sua voz, bem timbrada, tornava-se eloqüente, quando se inspirava em assuntos graves. Na intimidade era ele quem provocava a alegria nos semblantes, com suas anedotas e observações cheias de agudeza. Jamais se lhe viu em proveito próprio a mais insignificante parte do nosso reduzido pecúlio, o que, por outra parte, ele nunca administrou; meu tio Tiago era o encarregado especialmente disso. O mau conceito que persegue Judas neste sentido é o resultado de um dado inteiramente falso com respeito às suas atribuições entre nós. Excessivamente ciumento e aspirando honras e alegrias vaidosas, desejoso de estabelecer sua superioridade em uma associação fraternal, cujos membros se consideravam iguais; eis os defeitos daquele que mais tarde me atraiçoou, para satisfazer um ressentimento de cuja causa sou o culpado. Por que dava eu a Pedro provas de uma confiança tão evidentemente exclusivista? Por que permitia a João essas maneiras de preferido que acusavam uma manifesta parcialidade de minha parte para com ele? Por que, quando eram poucos os que deviam acompanhar-me, escolhia sempre os mesmos? Por que, enfim, tendo descoberto o mau efeito que isto produzia em Judas, não soube remediá-lo? Sim, digamos bem alto: Jesus, o irmão protetor de Judas, não deteve suficientemente a atenção em sua natureza sensível, ainda que desviada. Jesus não compreendeu que era necessário combater o ciúme, a vaidade, o orgulho desse homem, por meio de uma extremada doçura em todos os casos e com uma justiça severamente igualitária nas manifestações de todos para com um só e de um só para com todos. Coloque-se Judas no lugar do discípulo predileto e este no lugar de Judas: João, não vendo-se já apoiado por minha excessiva debilidade, ter-se-ia mantido nos limites de uma afeição santa, e não houvera ofendido a verdade com o extravagante desejo de querer-me estabelecer um culto divino; Judas, entretanto, dirigido no sentido que lhe era mais conveniente, não teria atraiçoado. — Pobre Judas! — Eu afastava-me dele à medida de seu maior ressentimento; o mal ia-se agravando; o abismo abria-se quando eu justamente podia encontrar o remédio em meu amor, evitando a queda desse espírito fraco. — Pobre Judas! — Em minhas últimas horas tu, mais que tudo, ocupaste meu pensamento, e minha alma se inclinava para a tua para falar-te de esperança e de reabilitaçãoPerdido, se disse, perdido está o que atraiçoou a Jesus. — Oh, não! — Nada se perde das obras de Deus. Todas volverão a encontrar-se purificadas pelo arrependimento, glorificadas pela resolução reparadora, luminosas depois do perdão. — Oh, não! — Nada se perde das obras de Deus. Todas chegarão a ser grandes, todas serão honradas; todas se arrastam penosamente pelas encostas da montanha para iluminar-se afinal, chegadas que sejam lá acima, com os esplendores do fogo divino. O abandono cheio de ingenuidade e o caráter feliz de Alfeu contrastava com a obscura fisionomia de Filipe, o qual se obstinava em vaticinar um porvir infausto e o fracasso de nossas doutrinas. Tomé nunca acreditou na revelação divina, porém havia-o fanatizado a grandeza da obra. Mateus, o mais bem preparado de meus apóstolos, foi também o mais sincero ao referir nossos discursos. Meu irmão Tiago era sempre o primeiro em responder sim a tudo o que eu propunha. Minha paciência e minha coragem seriam recompensadas por este filho de Maria, e a graça coroaria o espírito de meu irmão nos últimos dias de minha vida mortal. A familiaridade que reinava entre todos nós não impedia sentimentos de outra índole, como o do reconhecimento da superioridade, embora na mais íntima amizade, e bem me lembro, emocionado, a constante dedicação de Mateus para com Tomé e a paternal proteção de meu tio Tiago para com Lebeu.

“Eu dizia a Pedro: “Caminhemos para a conquista da  Humanidade.  — Por que repousarmos em calma e juntar alegrias dentro da tranqüila posse do que já temos alcançado quando novas possibilidades estão reservadas ao nosso ardor e a nossos sacrifícios? — Por que pedir forças a Deus e não empregá-las depois para a conquista de seus desígnios?
 “Jerusalém! — Esperança de minha vida! — Cidade venturosa! — O   grito sublime de chamada sairá de teu seio e teus filhos serão os verdadeiros adoradores do Deus vivente e eterno.
“Os delitos e as ruínas darão origem à sabedoria e à magnificência,  a Terra dirigirá para ti seus olhares desolados e tu a encherás de consolos e de luzes. Os homens te chamarão a glória das glórias, porque a paz, a liberdade, o poder e o amor se confundirão e reinarão unidos, só por tua virtude.
“Ainda que os justos pereçam nas mãos dos verdugos, que teus  escravos forjem suas próprias cadeias; que teus tiranos adormeçam sobre suas vitórias; nada, nada será capaz de retardar a hora da liberdade, e o amor fraterno se estabelecerá entre todos os homens.”

Pedro, enquanto eu lhe expunha meu pensamento sob formas simbólicas e proféticas, participava do meu entusiasmo e me haveria seguido até o fim do mundo; porém, muito depressa esse entusiasmo se arrefecia e ele voltava a ser o apóstolo dos primeiros dias, que ocultava debaixo do aspecto da devoção o medo que o dominava. Minha predileção por Pedro tinha-se formado devido à retidão de seu caráter, ingenuidade de espírito, delicadeza de sentimentos e à sua excessiva probidade. Falando-lhe com palavras singelas, das quais mais tarde se serviram como motivo de acusação por um delito futuro, eu não fazia mais que ler com meu natural discernimento o que se passava nesse coração leal, nesse espírito débil e pouco desenvolvido.

Em nossas reuniões familiares (assim designávamos as horas da refeição e minhas conversações à noite) Pedro, sempre colocado na minha frente, parecia querer defender-me do trabalho das respostas e evitar-me a banalidade das cousas materiais. Tornava-se todo ouvidos quando eu falava e seus olhares se esforçavam em ler meus pensamentos, quando eu me calava. Cuidava de minha pessoa como faz uma terna mãe pelo filho, e quando mais tarde eu queria permanecer em vigília, ainda que aparentemente cansado, empenhava-se em demonstrar-me que devia cuidar mais de minha saúde, perseguindo-me com uma solicitude que chegava a ser incômoda por exagerada. Durante nossas caminhadas, em nossas excursões mais distantes e nos momentos de descanso, sempre consultava-se Pedro a respeito de todos os detalhes, do que ele se aproveitava para opor conselhos de prudência e de calma ao meu ardor e ao meu calor pelas obras, empregando a maior lentidão nos preparativos para assegurar, dizia ele, o êxito de nossa missão. Um dia nos encontrávamos todos reunidos, dirigi-me a Pedro e lhe disse:

“Tu serás o primeiro de meus sucessores, porém resultará, para  vergonha tua, que decairás de teu dever abandonando a teu mestre. O abandono não consiste unicamente na separação material, senão que se demonstra também e com muita crueldade, com a separação dos espíritos.
                   “Felizes os que não viram e creram!
                    “Mais felizes ainda são aqueles que vêem e compreendem sem o  concurso dos sentidos materiais!
“Felizes os que sofrerem por causa da verdade, porque deles é o  reino de meu Pai!
“Felizes os livres e os fortes! — A liberdade e a coragem  adquirem-se com a renúncia dos bens da Terra pelos bens eternos.
“A fé demonstra-se com os trabalhos e brilha diante das  perseguições.
“A graça deve ser espalhada para atrair com seu aroma sobre  quem ainda não desceu.
“Os dons de Deus devem fortificar-se mediante as provas para  fecundar o porvir.
“De que valem a Deus vossos protestos e aos homens vossa  doçura, se há de permanecer estéril?
“Como quereis que Deus acolha vossas preces na graça se esta   graça só é aproveitada por vós?
“Com que fim pretendeis que Deus vos encha de dons, que vós  mantendes ocultos?
“Homens de pouca fé! A Terra vos prende porque careceis da  verdadeira convicção da vida futura.³
Homens indignos da graça! A graça deixa-vos frios e enfadados  porque não a compreendeis! Homens fracos e embrutecidos! Os dons de Deus são para vós o que seriam as pedras preciosas para os animais imundos.”

Pedro arrojou-se a meus pés, pronunciando estas palavras:

“Senhor, amado Senhor, faze de mim o que melhor te convenha.    Sou teu servo e não tenho outra vontade senão a tua”.

Nesse momento Pedro era sincero como sempre, senão que ele obedecia a um sentimento e eu não me iludia com promessas tão a miúdo renovadas. Contudo, procurei constrangê-lo mais que de costume a abracei-o dizendo-lhe:

“Jura-me que me seguirás ate à morte e que me escutarás ainda  depois dela, como inspirador de teus atos, para a continuação do que estamos realizando”.

Juro, respondeu Pedro, amar-te e seguir-te até à morte e que seguirei tuas instruções depois de ti, como se estivesses aqui.

Assim, pois, Pedro não havia compreendido a segunda parte do juramento que eu lhe exigia desde que falava de minhas instruções presentes, ao passo que eu lhe prometia novas inspirações depois de minha morte.

Continuei insistindo desde esse dia sobre a ressurreição de meu espírito,⁴ com tanta perseverança, que as formas por mim empregadas foram aproveitadas mais tarde para impor a crença de minha ressurreição corporal.

“Voltarei, me sentarei a esta mesa para dar-vos a paz e a força,  para preparar-vos para a Páscoa, para fazer-vos saborear as delícias dos favores divinos e facilitar-vos a pregação com o auxílio da luz que vos darei.
“Digo-vos: a vida corporal do homem é curta, porém, seu espírito  viverá eternamente.
“A casa torna a encher-se e o dia sucede à noite, em todos os  tempos e em todos os lugares.
“A família reconstitui-se com os membros espalhados de outra  família antiga, e a próxima estação dará bons frutos aos que tenham sabido semear em momentos favoráveis.
“Aceitai as provas passageiras como uma necessidade para  vossas naturezas, e quando já não me vejais, honrai-me lembrando-vos, na distribuição de bens, antes dos pobres que de vós mesmos.
“Já seja que vos separeis ou que permaneçais reunidos para os  fins da consolidação de vossas doutrinas, eu estarei sempre onde vos encontreis; mas não altereis nem dividais nada do que eu tenho formado ou reunido, de outro modo meu espírito se afastará de vós.
“A vergonha e o opróbrio serão o resultado de vossa ingratidão e  o desprezo a resposta à vossa iniqüidade, se vos deixardes influenciar pelas paixões da Terra. Vós deveis ensinar o caminho para a vida eterna, praticando a virtude e desdenhando as honras do mundo.
“Minha vida de homem tem que terminar de uma maneira  miserável; mas meu espírito seguirá a marcha dos séculos e dominará o ruído da tempestade para amparar-vos na luta ou para reconstituir o que vós tenhais destruído; para resplandecer em meio da plenitude dos vossos triunfos, ou para arrojar luz entre as trevas que tenhais fomentado, para defender-vos, ou para dar-vos o beijo fraternal, ou para repelir-vos; para dizer-vos: eu estou convosco, ou para dizer-vos: eu sou contra vós.
“Eu sou a vida, o que crer em mim viverá. Eu sou o espírito de  verdade e estou de posse da verdade de meu Pai.
“A Terra passará, porém minhas palavras não passarão, porque a  verdade é de todos os tempos, de todos os mundos, ao passo que a Terra não é mais que uma habitação momentânea.
“Não digas jamais: nós somos mestres. Sede, pelo contrário,    modestos e praticai os princípios de fraternidade, amando a todos os homens e ajudando-os.
“Quaisquer que sejam vossas penas e tribulações dizei: Deus meu,  que se faça tua vontade e não a minha.
“Em meio dos sofrimentos vos darei a alegria e sempre que orais  estarei no meio de vós.
“Sede pacientes na adversidade e nunca desejais a ruína e a  desgraça de vossos inimigos. A força nasce da adversidade e a resignação facilita o adiantamento do espírito.
“A malícia e a má-fé vos impelirão para as insídias e os homens  vos oprimirão com injúrias por minha culpa; mas eu estabelecerei minha morada entre vós e juntos prepararemos o reino de Deus sobre a Terra, posto que se disse de mim: Eis a aliança do passado com o porvir.
“Eu vos repito, o espírito será visto novamente e a Terra  estremecerá de alegria.
 “A marcha do espírito se efetuará tanto em meio do silêncio e das  trevas da noite como em pleno dia e em meio do tumulto das paixões humanas. A voz do espírito far-se-á ouvir por todas as partes e o pensamento de Deus se revelará com manifestações visíveis e próprias de seu poder e de sua vontade.”

Eu falava sempre neste sentido e concluía a maior parte das vezes com um pretexto moral ou com alguma consolação profética, cujo significado temerário ou valor real posso explicar agora.

Irmãos meus, pareciam-me definitivas as formas de minhas alianças e de meus laços humanos e jamais pensei em separar-me dos que se me haviam associado em minhas tentativas de reforma; porém nessa época foi tanto o que tive de lutar, cansado dolorosamente, contra o desalento, que me arrependi de ter-me ligado a espíritos demasiado novos para compreenderem-me, demasiado dependentes da família para que pudessem sacrificar-se-me por completo. Pedro era casado. Os dois filhos de Salomé sustentavam a mãe. Somente Judas e Lebeu estavam livres de parentela que pudesse pesar sobre eles por sua pobreza. Meus dois Tiagos, já se sabe, não tinham outras esperanças senão aquelas que depositavam em mim, nem outros temores e cuidados.

Aprovei com facilidade todos os projetos de meus apóstolos, cujo fim era o de amenizar em algo nossa vida em comum; porém, eu recomendava-lhes uma probidade escrupulosa em suas relações com os estranhos e o abandono de seus direitos diante da falsidade e da prepotência dos outros.

“Nosso pai que alimenta as avezinhas, dizia-lhes, vos mandará   vosso pão quotidiano se colocardes nele toda vossa confiança. “Pedi o perdão, perdoando vós também aos que vos tenham  ofendido. Louvai a Deus quer quando vos encontreis de boa saúde, quer encontrando-vos enfermos, tanto em meio da alegria como da tristeza, e mesmo na pobreza que na opulência.
‘Livrai vosso espírito das tentações da carne e segui a lei de amor e de justiça.
“Deus está em todas as partes, ele vê vossos pensamentos mais  secretos. Privai-vos portanto de dirigir-lhe vossas preces somente com os lábios. Meditai sobre estas minhas palavras. Encontrareis assim a regra de uma conduta edificante e a fonte das orações agradáveis ao Senhor nosso Deus.”

Irmãos meus, a oração dominical não foi ditada por mim. Nossas preces eram feitas com o pensamento e com a prática dos deveres que nós nos impúnhamos. Orávamos em todos os momentos do dia, quando oferecia a Deus o sacrifício de minha vida, para semear com meu sangue a Terra prometida à humanidade do porvir. Orava a toda a hora para aliviar minha alma, que buscava Deus, e para purificar meu espírito das emanações terrestres. Porém, não tinha que formular orações que meus ensinamentos preparavam, e restringia-me simplesmente a assuntos de moral e às explicações referentes à nova lei que queria que substituísse a antiga.

A nova lei tinha seus fundamentos em máximas que eu tinha recolhido e sobre o trabalho de meu próprio espírito quando percorria as esferas da espiritualidade, diante das verdades divinas.

A nova lei inculcava o amor universal e abolia todos os sacrifícios de sangue.

A nova lei favorecia o livre desenvolvimento de todas as faculdades individuais para que concorressem para o bem geral, e honrava a todos os homens, dizendo-lhes:

“Sede iguais diante de Deus. O poder dos homens não dura mais   do que um momento, ao passo que a justiça divina é eterna.“Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros  para dar esplendor a esta justiça.
“A pobreza dá direito às riquezas. Felizes os que são pobres  voluntariamente para a glória de Deus.
“A escravidão será banida da terra, porque a mulher é igual ao   homem e o servo vale tanto como o senhor, diante da sabedoria divina.
“Esta sabedoria é a que rege os destinos, recompensa e  castiga, envia a palavra de paz no meio de todas as humilhações, no meio de todos os sofrimentos, de todas as torturas da alma, do espírito e do corpo”.

Eu unia-me tão intimamente com a pobreza que dizia:

                     “Os pobres são meus membros”.

E buscava com tanta avidez a vergonha, para dar-lhe a esperança da purificação, que mulheres de má vida, vagabundos de toda laia, converteram-se no cortejo permanente de minha pregação durante este período de minha vida, desde o dia de minha vitória sobre as indecisões de meus apóstolos até o de minha acusação perante o Sinedrim de Jerusalém, ordenada pelos príncipes da lei e pelos sacerdotes de Deus.

Eu estava convencido de que a morte me esperava em Jerusalém e queria rodeá-la de tal maneira que meus apóstolos guardassem dela a recordação vibrante de minha atitude, de minhas palavras, de minhas demonstrações de amor, dos atos de humildade e de todas as ferocidades.

Era necessário demonstrar a grandeza da minha doutrina e explicar minha força de espíritono meio dos acusadores e dos verdugos, para morrer com as honras do êxito.

Eis por que eu misturava no projeto desta viagem tantos estremecimentos generosos do coração, com tantas amarguras do pensamento; tantas emoções felizes com tantas energias em estigmatizar a covardia e o abandono; tão agradáveis e persuasivas lições com tão duras e ameaçadoras profecias; tanta ternura no sorriso e tanta tristeza no olhar.

Esgotado pelas fadigas do apostolado, com o espírito devorado pela ambição das alegrias celestes, via no martírio a promessa de um glorioso repouso, e não procurava retardar a hora de sua chegada, porque sabia que a hora estava marcada e que a elevada felicidade da espiritualidade pura que me esperava começaria com os derradeiros espasmos de meu corpo material.

Podia, é certo, subtrair-me aos horrores do suplício, porém, isto me haveria obrigado a vegetar na impotência e o porvir seria sacrificado por tão pueril fraqueza.

Irmãos meus, esse fanatismo constituía o sentimento de minha missão. Do vosso mundo, eu sou o único Messias a quem lhe foi concedido poder continuar ostensivamente sua obra, porque fundei-a com minha vida de trabalho e com minha vontade para o sacrifício. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Estabeleçamos aqui, irmãos meus, uma comparação entre Sócrates e Jesus, ambos mortos pela glória de uma doutrina, de razão sã e honrada pela luz divina.

Sócrates fez-se afetuoso e filósofo dominando suas paixões; fez-se religioso compreendendo a Natureza; fez-se forte falando com os espíritos de Deus.

Sócrates morreu perdoando a seus verdugos e abençoando a morte que lhe restituía a liberdade; mas não pôde fundar um culto para com o verdadeiro Deus, nem demonstrar a utilidade de sua morte para os homens do futuro, e não resta dele mais que uma escola, famosa, é certo, porém, sem preponderância no Universo, porque a palavra emanava aí de homens cheios ainda de superstições, apesar dos princípios de moral postos por eles em prática. A doutrina da existência de um só Deus ensinada por Sócrates e mais tarde por seus discípulos não se elevou acima das ruínas da idolatria e não lançou os fundamentos de uma sociedade nova.

Ao fazer ressaltar assim minha superioridade como Messias, devo não obstante inclinar-me diante deste Sábio e apontá-lo à Humanidade como um dos seus membros mais dignos de respeito e de amor.

Sócrates viveu na pobreza e jamais seus lábios foram manchados pela mentira. Foi puro de todo o ódio e de todo o desejo humilhante para a consciência; jamais sua palavra se elevou para acusar e jamais seu coração guardou ressentimentos. A piedade para o infortúnio, o desinteresse em suas relações, a força e a justiça contra a insolência e a falsidade, honraram a vida de Sócrates, e a morte transportou-o no meio de torrentes de luz para as fontes de todas as honras. Sócrates tem um ponto de semelhança com Jesus, e é de haver dado o exemplo das virtudes que pregava e de ter morrido pela verdade.

Mas Jesus, mais adiantado que Sócrates no conhecimento do espiritual, tinha que dar maior impulso a seus sucessores e projetar mais luz em seu derredor, e na luta com os instintos da natureza carnal em presença das invasões das esperanças divinas, Jesus teve que demonstrar-se mais forte, porque se encontrava menos sujeito à matéria, por direito de ancianidade de espírito. A marcha de Jesus, desde sua infância até o Calvário, foi em todos os momentos a consagração de sua idéia. Sócrates, pelo contrário, não pôde ver-se inteiramente livre das superstições e permaneceu escravo das idéias de sua época na presença das maiorias populares, apesar de que adorava a Deus com seus discípulos. Porém, aí também se descobre um ponto de semelhança. Sócrates, do mesmo modo que Jesus, não podia desafiar a opinião pública sem incorrer na severidade das leis, e se Jesus se demonstra em suas doutrinas menos distanciado da religião judaica do que Sócrates nas suas, da pagã, isso em nada diminui o justo valor, desde que ambos se viam obrigados a não contrariar demasiado a religião dominante. Se Jesus correu para a morte, ao passo que Sócrates a viu simplesmente aproximar-se sem estremecimento, é porque Jesus estava convencido de sua missão Divina.

Nisso consiste sua superioridade indiscutível sobre Sócrates, sendo esta precisamente a auréola de sua glória e a causa de sua nova mediação.

Jesus bem sabia que podia evitar a morte, porém a filiação divina que ele se havia dado, a radiante esperança que demonstrava para inspirar a futura docilidade a seus apóstolos, a palavra profética que lançava como uma chama sobre o porvir, tudo constituía uma lei que o impelia a morrer dolorosamente e por sua própria vontade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Resolvemos ir antes que tudo a Nazareth; eu tinha pressa de ver minha família. Minha próxima visita à minha mãe formava o argumento de minhas meditações durante o caminho e meus discípulos respeitavam meu silêncio.

Previa as repreensões que minha mãe me dirigiria ao conhecer minha resolução de lutar com os sacerdotes de Jerusalém. Eu havia abandonado os meus para entregar-me a todos, tinha descuidado os deveres de família para desligar-me dos impedimentos carnais. Mas, tinha eu realmente o direito de proceder assim? Seria bem vista aos olhos de Deus a transgressão da lei humana, no que ela tem de mais justo e solene, qual é o amor e a docilidade dos filhos para com a mãe? Por que, Deus meu, essa angústia da alma se eu obedecia à tua voz? Por que estas aflitivas recordações retrospectivas, se minha missão de Messias devia sobrepor-se à minha natureza humana, a meus deveres de filho e às minhas aflições terrestres? Por que tanta atividade para preparar o sacrifício, se ele constituía um ultraje à moral universal, baseado na dependência dos seres e em suas relações fraternais?

Por que, Deus meu, este desânimo no momento das honras e por que este falso caminho levado a termo por teu poder e por tua justiça?

Eu orava. A oração acalmava estas agitações de minha natureza humana, engrandecendo os desejos espirituais e alimentando meu coração com o fogo do amor divino. Orava e a esperança das alegrias celestes escondia-me as sombras de minha vida de homem, e a divina missão apresentava-se-me como uma chama devastadora das ternuras da alma e das alianças do espírito em meio da matéria.

Depois de haver orado, só me ocupava de Deus. Depois destes delírios e destes recolhimentos eu sentia-me mais forte e meu pensamento era transmitido com mais nitidez ao meu cérebro.

Aproximava-me a meus companheiros e fazia-os participar de minha liberdade de espírito. Reunia-os tão estreitamente em minha felicidade futura, que inclinavam a cabeça diante de meus olhares inspirados e beijavam minhas vestes com tal fé e entusiasmo que minha alma se alvoroçava.

Chegamos a Nazareth. Deixei meus apóstolos em uma casa próxima à cidade e com meu tio e meu irmão apresentei-me na casa paterna.

Toda a família estava reunida para receber-nos e pressentimos uma oposição mais viva nesta concentração de forças. Meus irmãos consanguíneos, cujo número de cinco se havia reduzido a três (deplorava eu o mau humor de meus outros irmãos, assim como eu, filhos de Maria), tinham pensado poupar-me um acolhimento demasiado frio. O irmão que me seguia em idade vivia em um lugar distante cinco estádios de Nazareth. Eu não podia conhecer as qualidades de seu coração, nem as relações que se mantinham entre ele e os demais irmãos; porém em seguida, li em seus olhares o profundo desprezo que lhe inspiravam minha vida errante e meus trabalhos de apóstolo. Ia para abraçá-lo, porém ele repeliu-me e pronunciou estas palavras:

“Eis-te! Vens agora para permanecer muito tempo ou por uma  hora? Voltas a ser nosso irmão ou segue sendo o filho de Deus? Devemos absolver-te ou resignarmo-nos a uma separação definitiva?
“Teus irmãos são filhos de José e de Maria, que tens tu demais  que eles? Teus irmãos têm cumprido seus deveres de filhos e de parentes, que tens feito tu de tua parte?”

Inclinei a cabeça ante esta recriminação que envergonhava minhas divinas esperanças e em seguida, dirigindo-me à minha mãe, disse-lhe:

“Pobre mãe, teu filho Jesus te inunda em lágrimas, porém ele  chama Deus em testemunho da pureza de seu coração e da lealdade de suas intenções; seu espírito está abrasado pelo desejo espiritual e te amará a ti muito mais na pátria celestial do que pode amar-se sobre esta Terra”.

“Sim, interrompeu meu irmão, na pátria celestial não se precisa de  nada, o amor de Deus alimenta, e nossa mãe será amada pelo filho de Deus. Que honra para todos nós, se isso fosse algo mais que um sonho de um insensato!”

A estas palavras meu tio e meu irmão Tiago se aproximaram a mim dizendo: Nós também somos insensatos!

Aproximei-me à minha mãe e, passando-lhe o braço debaixo do seu, conduzi-a em direção do pequeno jardim que se estendia por baixo da janela do compartimento em que nos achávamos; nossos irmãos nos acompanharam.

Meu cansaço, a pobreza demonstrada por minha indumentária excitaram a compaixão das três mulheres e começaram a prodigalizar-me, ali mesmo, uma série de atenções delicadas e de cuidados, que me fizeram sofrer muito mais que a frieza de meus irmãos.

Eis os nomes de meus irmãos e irmãs por ordem de idade:
Efraim, José, Elisabete, Andréa, Ana e Tiago.

Quanto a meus irmãos consanguíneos, os que a história nebulosa de minha vida converteu em primos, recordo-me com um sentimento de felicidade de seus afetos. Chamavam-se: Matias, Cleofas, Eleazar.

José e Andréa seguiram-me mais tarde para opor aos meus meios de propaganda a negação de meu título divino e acusarem-me de loucura. Meus irmãos Matias, Cleofas e Eleazar demonstraram-se-me mais tarde, porém só com o desejo de arrancar-me à morte, sem combater minha fé.

Permanecemos vários dias em Nazareth. Minhas irmãs, a mais jovem das quais vivia com minha mãe, disputavam o prazer, diziam elas, de servir-me, e meus irmãos andavam atentos à minha voz. Minha mãe inspirava-se em meus pensamentos e elevava-se em aras de pureza da prece, quando lhe demonstrava a necessidade do meu sacrifício.

“Oh, Deus meu, dizia ela, submeto-me à tua vontade, mas ampara  minha resignação e proporciona-me provas evidentes de que meu filho se encontra na luz!
“Dá à minha fé o apoio que lhe falta, à minha esperança uma luz  que possa torná-la segura e então meu amor de mãe sucumbirá sob o poder de teu amor divino.”

Um dia em que nos encontrávamos sós minha mãe e eu, mostrei-lhe a areia que cobria a terra e nossos pés e depois, com urna varinha, tracei alguns caracteres, cujo sentido era o seguinte:

“Jesus tem que morrer para glorificar a Deus, ou viver para ser  desonrado diante de Deus”.

Expliquei à minha mãe a fonte de minha ciência e a prova material de minhas inspirações divinas. Deixei-a sob a impressão da surpresa e arrastei-a em seguida para a convicção de meu espírito e entusiasmo de minha alma. Impressionei sua imaginação enquanto dava satisfação à sua inteligência. Preparei-a para o sacrifício com a exaltação de minhas crenças e da luz das ordens de Deus. Minha mãe ficou convencida, ainda que não de todo resignada.

Durante nossa estada em Nazareth, tínhamos todas as noites conversações com muitas pessoas e respondíamos com doçura às objeções e ao curioso desejo de encontrar-nos em faltas.

A familiaridade de meus discípulos com meus irmãos deu o resultado de sermos espiados e molestados em todos o lugares por onde tivemos de passar depois. Minha independência não foi pois completa, como se crê geralmente, posto que, impelido aos extremos da contrariedade, que me suscitava minha família, cheguei a criar-me um direito de minha própria liberdade de espírito e a proclamar que não conhecia irmãos, nem parentes, nem aliados.

Deixo Nazareth pela última vez.

Levo comigo a dolorosíssima recordação do sofrimento de minha mãe e das lamentações carinhosas de minhas irmãs.

Meus queridos irmãos acompanharam-nos até certa distância e nos separamos com lágrimas nos olhos.

Torno a levar comigo meu tio e meu irmão Tiago, que querem acompanhar-me ate à morte.

Íamos silenciosos ao afastar-nos de Nazareth. Estas expansões no seio da família tinham feito recordar a meus discípulos a família ausente, e a alma de Jesus curvava-se com dor sob o peso do amor filial e fraterno.

Tínhamos que colocar-nos nas condições de homens que tudo sacrificavam pelo triunfo de uma idéia, sendo que meus discípulos conservavam a esperança de tornar a ver aos que tinham deixado, enquanto que eu apoiava sobre minhas recordações e sobre minhas aspirações a mão gelada da morte, fugindo-me ao mesmo tempo toda imagem consoladora para encontrar-me olhando no vácuo... O vácuo se animava por minha obstinação em dar-lhe vida e, deste modo, do sofrimento extremo eu me transportava aos resplendores divinos.

Oh, Deus meu! — Quanta felicidade nessas visões! —

Mas também quanto abatimento na realidade! — Quantas honras depois da vitória, porém, quantas amarguras durante o combate!

Irmãos meus, não poderia repetir-vos suficientemente, a luz de Jesus era momentânea, fugaz, e a natureza humana arrojava seu espírito no meio de cruéis perplexidades, para honrar nele, como em todas as criaturas, o eterno princípio da justiça divina.

Meu projeto ao abandonar Cafarnaum era o de visitar a todos os meus amigos de Jerusalém e de procurar novos aliados para dar às minhas doutrinas maior exterioridade. Queria demonstrar meu título de filho de Deus com as explicações de meu título de Messias, junto aos que se encontrassem em condições de compreender esta aliança, baseada sobre a razão e a justiça divina, porém, estava bem disposto a não fazer uso a não ser da primeira destas prerrogativas, a de filho de Deus, em todos os casos de agitações tumultuosas das massas ignorantes e de exaltações fanáticas de meus mais sinceros servidores. Era necessário assegurar o porvir e um reformador; um Messias teria caído depressa no esquecimento, sobretudo depois das manifestações cheias de maledicência do povo, que meus inimigos não deixariam de sublevar contra mim.

Nesta última parada em Jerusalém eu tinha que afirmar a crença em meu poder espiritual, sem proporcionar base para acusações de parte da posteridade no sentido deste poder espiritual, quer dizer que minha presença entre os homens devia fundar uma religião universal,⁸ deixando em todos os espíritos o germe indestrutível do amor fraternal, de que era o iniciador e o mártir.

O filho de Deus que libertava seus irmãos da escravidão e que morria para dotá-los de uma lei de amor; o filho de Deus que revelava seus mandamentos no meio dos pobres, dos enfermos, dos pecadores; o filho de Deus que salvava a mulher adúltera da primeira pedra com estas palavras: Atire-lhe a primeira pedra o que se sinta livre de pecados! — O filho de Deus que levanta a pecadora com estas palavras:

“Vem, a casa de meu Pai está preparada para receber-te, já que  detestas teu passado”.

O filho de Deus que dirá a todos:

“Amai-vos uns aos outros e todos os vossos males cessarão, e  todos as vossas ofensas a Deus vos serão perdoadas”.

Este filho de Deus não tinha necessidade de ferir a imaginação com fantasmagorias, porém, tinha que afirmar seu prestígio divino e conquistar a Humanidade, apoiando sua moral com o exemplo.

Que este prestígio tenha alcançado seu coroamento aqui e tenha obscurecido sua memória em outra parte. Nada importa! —

Este prestígio fica com a sanção da obra e é o que Jesus queria.

Que a Humanidade não tenha sido ainda conquistada por culpa dos sucessores de Jesus. — Não importa! — Porque Jesus está aí, e quer reconstruir sua igreja.

Jesus disse e eu o repito:¹⁰

“Trago a palavra de vida. Todo o que ouça esta palavra terá que  espalhá-la.
“Apresentai-me a verdade e eu vô-la direi agora e mais tarde,   posto que a verdade é de todos os tempos, e eu sou a alegria e a esperança, o presente e o futuro”.

Eu me detive imediatamente nas margens do Jordão.

Entregamo-nos às práticas da purificação, encontrando-nos na época dos maiores calores do ano. Além disso, sempre com o propósito de conduzir os homens para a crença na ressurreição¹¹ do espírito, pronunciei muitos discursos no sentido de minha participação futura na libertação da Humanidade e do estabelecimento de minha doutrina na Terra.

“Ninguém, dizia eu, crê agora na ressurreição do  espírito, porém,    acreditar-se-á certamente quando eu voltar para acusar e amaldiçoar aos falsos profetas, as perniciosas doutrinas, os ferozes dominadores, os depravados e os hipócritas.
“Acreditar-se-á certamente quando Deus acalmar a tempestade  com a minha palavra e que esta palavra seja repetida, de boca em boca, até à consumação dos séculos!
 — Quando os mortos despertem de seu sono para anunciar a vida!  — Quando a Natureza exausta receber um novo impulso e que o sangue não brote mais de suas entranhas!
“A ressurreição efetua-se também agora, porém, se evidenciará  melhor quando possais conservar a lembrança de vosso passado, e afirmo-vos: muitos dos que me escutam me verão e me reconhecerão.”¹²

A purificação, novo batismo, como dizia João, não tinha também a predileção de meus pensamentos. A culpa e o delito, todos os vícios, principalmente a hipocrisia, sugeriam-me preces fraternas para obter um arrependimento verdadeiro; porém, como João pronunciava com palavras severas a condenação do pecador submerso na impenitência final.

De minha diferente forma de falar, segundo os homens a que me dirigia, creio, irmãos meus, ter-vos já dado a razão, e as contradições postas em evidência mais tarde, como acusações perante o povo de Jerusalém, explicam-se facilmente. Mas as contradições cessam desde o momento que anuncio o reino de Deus, que muitos verão e que confirmo a ressurreição do espírito, desataviando-a das formas nebulosas que lhe dera a princípio, para fugir de uma perseguição muito extremada.

Eu coloco-me neste instante como demonstrador da justiça divina e acuso com maior energia as instituições humanas, posto que aponto as riquezas como um escolho, o poder como uma aberração e o princípio sobre que descansam as leis humanas como um flagrante delito de lesa-majestade divina. Deito abaixo todas as posses baseadas no direito do mais forte e proclamo a escravidão a mais vergonhosa demonstração do embrutecimento humano, anuncio o reino de Deus que muitos verão e confirmo a ressurreição do espírito dizendo:

“A liberdade do homem obtém-se gradualmente, com a força de  sua vontade unida às luzes de seus predecessores na vida espiritual.
“Estas cousas não podem, entretanto, ser compreendidas agora,  mas virá tempo em que todos compreenderão e então o reino de Deus se estabelecerá sobre a Terra.
“Muitos dentre vós verão o reino de Deus e o Messias repetirá as  palavras que hoje pronuncia.
“O homem novo renascerá até que o princípio carnal tenha sido  extinto nele. Todo aquele que nasce tem que renascer e os que  tenham vivido bastante irão viver em outro lugar.
“O espírito do homem tem que abandonar seu corpo; porém o  espírito voltará a tomar outro corpo. Por isso, quando vós me perguntais se eu sou Elias, respondo-vos:
Elias voltará, mas eu não sou Elias, sou o filho de Deus, e meu  Pai me mandará novamente¹³  para fazer resplandecer sua justiça e seu amor, porém somente me mostrarei a alguns e meus discípulos terão que repetir minhas palavras e afirmar minha presença.
“Sou o Messias e o Messias morrerá sem haver terminado sua  obra; porém concluí-la-á depois de sua morte.
“Recomendo-vos que vos liberteis do temor da morte, porque a  morte se reduz a uma mudança de residência, e fazei da ressurreição do espírito uma honra para os que não tenham  prevaricado contra minha lei.
“O espírito caminha sempre para diante enquanto estiver  amparado pela fé nas promessas de Deus, que concede também a graça de poder persuadir aos homens, aos que têm fé.
“Não vos amedronteis com minha morte e caminhai para o  Espírito com fé e com amor.
“Não espereis dos homens a recompensa dos vossos trabalhos;  ponde somente em Deus vossas esperanças.
“Deus jamais permanece surdo à prece e aos desejos de um  coração puro e agradecido”.

Irmãos meus, no exercício do apostolado Jesus teve que ser desprezado dos ricos e dos poderosos (excetuando alguns casos dos quais já vos falei e que farei novamente ressaltar), porém, no último período de minha missão, o povo, cujos direitos Jesus tinha sustentado sempre acalmando seus sofrimentos morais, o povo foi seu acusador e seu verdugo.

É que a ignorância converte o povo em cúmplice de seus mais cruéis inimigos.

É que a hipocrisia, baldão espantoso da humanidade terrestre, emprega como instrumentos para oprimir o pensamento, algemar o braço, ferir o coração, aqueles mesmos a quem devera aproveitar o trabalho do pensamento, a força do braço, o amor do coração.

Eu tinha que cair tão-somente pela malevolência das multidões, sabia igualmente que esta malevolência se manifestaria e para isso preparava meus discípulos. 

“Sede meus guardiães e meu consolo, dizia-lhes, rodeai-me de  ternura, pois que me vejo entre as garras da má-fé dos grandes, e da ingratidão dos pequenos, do ódio dos maus e do abandono dos melhores.”

A clara interpretação de minhas forças e de minhas esperanças produzia-se cada vez mais no espírito de meus fiéis e a respeitosa deferência para com meus desejos favoreceu minha liberdade de ação e meus meios de proselitismo durante o espaço de tempo que decorreu entre minha chegada a Jericó e minha prisão no monte das Oliveiras.

Conte-se sete meses entre estas duas épocas.

Gostava de Jericó, seja por sua situação e pela afabilidade de seus habitantes, seja pelas lembranças que despertava em meu espírito. Porém aqui também tenho que fazer notar alguns erros.

A Zaqueu, o aduaneiro, e a Bartimeu, o mendigo, deu-se-lhes uma denominação convencional. O título de filho de David, com que me denominaram em Jericó e em outras partes, não produziu em mim mais que piedade e impaciência. O título de filho do Homem pretende-se que tenha sido escolhido por mim; porém, eu jamais quis outro patrocínio que não fosse o das denominações de Messias e de filho de Deus.

A condição de Messias está cheia de claridade; a de filho de Deus compreende em sua obscuridade o direito de todo homem à filiação divina, tal como já expliquei. A força do porvir, o triunfo da verdade tinham que surgir destas palavras: Messias filho de Deus.

Que podia importar a Jesus o título vaidoso de filho de David e o outro título, ao qual se quer dar uma forma dogmática?

Direi mais tarde como e por quem me foi dada a denominação de filho do Homem. Irmãos meus, aproveito-me de minha permanência em Jericó para terminar o capítulo décimo. Começaremos o undécimo entrando em Jerusalém; a seguir vos apresentarei meus hospedeiros de Betânia, Maria de Magdala, e muitas personagens que vos são desconhecidas.

¹ Com estas palavras a doutrina da graça fica completamente desautorizada. — Nota do Sr. Rebaudi.

²  Para os espíritos verdadeiramente grandes é fácil o perdão das ofensas, porém isso de querer tomar a seu cargo a culpabilidade recebida para minorar a culpabilidade do ofensor e, o que é mais ainda, pensar, no meio do mais horrível dos martírios, pensar, preocupar-se profundamente pela sorte daquele que foi a causa desse mesmo martírio, isto é somente próprio de um Jesus. Basta esta passagem, ainda que não tivesse lido uma só linha mais da obra, para que eu diga a mim mesmo: Ninguém senão Jesus pode ter escrito isto. — Nota do Sr. Rebaudi.

³ Esta carência de convicção é conseqüência da escassa evolução do espírito humano, que não chegou a sê-lo o suficiente para viver definitivamente no plano dos espíritos. Assim o provam os “quadros de além túmulo”, que unicamente se referem a assuntos do plano físico. — Nota do Sr. Rebaudi.

Refere-se naturalmente à sua volta como espírito. Era de certo modo uma ressurreição desde o momento que voltava a manifestar-se depois de se haver ausentado pela morte.

De acordo com o critério dominante então, e que ainda domina entre nós, era incompreensível o regresso de Jesus entre seus discípulos a não ser com o mesmo corpo que conheciam. Ainda agora os católicos não concebem a vida do espírito sem a materialidade das sensações, só perceptíveis com os sentidos corporais. Por isso, para a plenitude dos gozos dos eleitos e dos tormentos dos réprobos, a igreja católica devolve seus corpos, no juízo final, a uns e a outros, Este modo estreito de ver as coisas é devido precisamente à ridícula mania de querer tomar como norma de existência a humana e como norma de percepções a que resulta de nossos sentidos, de acordo com o qual toda sabedoria e todas as potencialidades divinas se teriam esgotado na formação do homem. Bem pobre, por certo, a idéia da divindade que assim pudesse determinar! Os modernos espiritualistas, pelo contrário, sabem que são infinitas e infinitamente diversas as percepções de que é incapaz o homem de apreciar e nem sequer de suspeitar. — Nota do Sr. Rebaudi.

Jesus insiste freqüentemente nisto de família, deixando patente o critério superior com que ele a entende, não muito conveniente por certo, para estreitar seus vínculos. Sem dúvida alguma os laços de família são passageiros, pois que se rompem com a morte, ao passo que os laços do amor, pelo contrário, se consolidam, se engrandecem e se aperfeiçoam, são as únicas ligações que perduram; a prova disso é que o amor constitui a lei suprema do Universo. No caso presente, Jesus quer dizer que os claros deixados pela morte nas famílias se preenchem facilmente mediante o parentesco com famílias anteriores, sobretudo com os matrimônios, que a miúdo determinam a fusão de duas famílias em uma, com os filhos que nascem e até com as adoções; porém com a virtude perdida não sucede o mesmo, e o quebrantamento de suas doutrinas, por fraqueza ou falta de fé de seus apóstolos, seria um mal muito mais difícil de remediar. Se fora possível no mundo atual o império das idéias de Jesus, não haveria necessidade de rodear de tantas garantias a constituição do lar, mas, não sendo assim, é preciso convir que a família legal é a base primordial das sociedades civilizadas. — Nota do Sr. Rebaudi.

Aqui emprega-se a frase força de espírito como força de ânimo e nada há que observar, porém a miúdo se descobre certa confusão no emprego das palavras alma e espírito. Esta confusão é muito entre nossos escritores moderno-espiritualistas. Eu, por minha parte, seguindo a outros autores, entendo por espírito a alma revestida por seu corpo astral, tal como se lhe descobre nas experiências medianímicas. É a entidade completa, a alma provida de seus meios de individualidade e de realização. — Nota do Sr. Rebaudi.

 Volta Jesus a apresentar-se como o fundador da Religião Universal, razão pela qual, com esta sua história, chamou sobre si a atenção e as mais intensas simpatias dos moderno espiritualistas. — Nota do Sr. Rebaudi.

Aimé Martin disse muito bem, que Jesus não veio acrescentar uma religião a mais às que já dividiam a Humanidade, senão procurar a unidade moral de todas elas, ou, o que afinal é o mesmo, a unidade moral entre todos os homens. O acerto deste conceito ressalta melhor ainda agora ao apresentar-se-nos Jesus como o fundador da Igreja Universal de uma maneira mais explícita, como não aparece nos Evangelhos, se bem seja indubitável que as tendências da predicação de Jesus foram sempre as de universalismo, sem estreitezas sectárias, como as que resultam de todos os cultos e de todas as escolas, que se dão o nome de cristãs. O catolicismo, por exemplo, consagra um sem número de ritos e de práticas que nada têm que ver com o “ama a Deus sobre todas as coisas e a teu próximo como a ti mesmo”, sucedendo geralmente que esse complicado formulismo toma as vezes do único fundamental na doutrina do Mártir do Gólgota, isto é: o amor do próximo, o esquecimento das ofensas e o retribuir bem por mal. Fora das religiões oficialmente constituídas existem numerosos adeptos da idéia cristã, que não obstante isso, nada parecem haver feito no sentido de se lhe adaptarem, posto que os vemos sempre dispostos a combater com o primeiro contendor em lugar de procurar o triunfo de suas idéias pelo amor e pela justiça.
— Nota do Sr. Rebaudi.

¹⁰ Como se terá observado numerosas vezes, Jesus apresenta-nos duas personalidades da sua única. O Jesus da encarnação não é o Jesus do espaço, o Jesus espírito. E em realidade o Jesus da predicação possuía peculiaridades que faziam dele um ser distinto do espírito que no espaço se encontra na posse de todas as suas faculdades e livre dos estorvos com que o meio humano o limiava em todo sentido. — Nota do Sr. Rebaudi.

¹¹ Ressurreição do espírito por sua reabilitação mediante o arrependimento e os desejos sinceros de não tornar a incorrer nas mesmas faltas. — Nota do Sr. Rebaudi.

¹²  Nesta passagem compreende-se que a palavra ressurreição foi empregada no sentido de reencarnação. — Nota do Sr. Rebaudi.

¹³  Em espírito.