Passa já da hora o vosso despertar espiritual . . . Saiba que a tua verdadeira pátria é no mundo espiritual . . . Teu objetivo aqui é adquirir luzes e bênçãos para que possas iluminar teus caminhos quando deixares esta dimensão, ascender e não ficar em trevas neste mundo de ilusão . . .   Muita Paz Saúde Luz e Amor . . . meu irmão . . . minha irmã

sábado, 22 de fevereiro de 2014

CAPÍTULO XI - Livro: Vida de Jesus ditada por Ele Mesmo Jesus foi a Jerusalém, só, apresentando-se a José de Arimatéia, que o acompanhou por todos os lugares em que convinha fossem vistos, para os fins da obra do Mestre. Necessidade do sacrifício de Jesus, somente por ele compreendida. A parábola do mau rico. Associa seus discípulos mais íntimos à sua glória futura, sempre que souberem fazer-se credores dela com suas virtudes e dentro do conceito que meu reino não é deste mundo, como sempre dizia. Açoita aos mercadores do templo e aos hipócritas. Conversão de Madalena.



Entrei só em Jerusalém. O lugar para nossas reuniões havia sido fixado em Betânia. Eu tinha assim que sair todas as tardes. Privado de notícias desde algum tempo, aproximei-me da casa de meus amigos com muita apreensão. José de Arimatéia recebeu-me com expansão de alma e nobre veneração de espírito.

Acompanhou-me por todos os lugares em que tínhamos de ser vistos, como iniciadores da liberdade e da verdade, de que todos tinham sede e cuja manifestação todos desejavam. José era agora de minha opinião, porém contava que se atingiria o objetivo sem que sucumbíssemos materialmente na empresa.

Respeitei a ilusão de meu amigo, porque, se tivesse intentado destruí-la, a indecisão de José haveria fatigado minha alma e talvez enfraquecido minha resolução. Faziam-me falta testemunhos das laboriosas manifestações de meu espírito. — Que me importava, depois do êxito moral, a ruína material? — Que me importava um pouco mais ou um pouco menos de celebridade no presente, se só me preocupava o futuro?

“O sacrifício de Jesus, dizia para mim, não compreendido no  momento de sua realização, será mais tarde um convite para a resignação, para o sentimento da fé, para o desafogo da alma e para a paz do coração, para todos os infelizes. Por maior que seja agora a solidão de Jesus e o silêncio da história contemporânea, sua personalidade terá ditado leis de fraternidade e de amor a todos os homens e essas leis serão imortais.”

Por intermédio de José conheci muitos personagens importantes e a Marcos, de quem falarei mais tarde. Nicodemus era um rico das proximidades de Jerusalém. Recordo-me de suas liberalidades, quando eu vivia separado de minha família e que me havia comprometido como revolucionário. Fui à sua casa. Ele, sua esposa, seus filhos, seus irmãos, toda a sua família receberam-me com a maior cordialidade. Ampla hospitalidade, ternura ativa, harmonia de coração e de vontade. — Quão doce e consolador é o honrar-vos por meio da recordação!

Irmãos meus, acusando os depositários da autoridade religiosa, os depositários da lei, os afortunados e poderosos, eu tinha em vista tão-somente reformas sociais. Glorificando a pobreza, exortando aos ricos a sacrificar os bens da Terra para conquistarem os tesouros da luz de Deus, eu estava convencido que o espírito se emancipa quando sofre o martírio da pobreza, com o conhecimento e com a resignação; e meu desprendimento das riquezas tinha sua razão de ser por minhas observações da fraqueza humana e pelas vergonhas inerentes aos gozos carnais.

Porém, então como agora, eu sabia que em todas as classes se encontram naturezas fortes, dignos mandatários, espíritos independentes capazes de fazerem germinar os desígnios de Deus, e meus amigos faziam-me a justiça de tomar-me por um filósofo religioso e não por um utopista ou sonhador.

Minhas parábolas a respeito dos maus ricos e da participação dos pobres à majestosa felicidade do céu, tinham todos os caracteres da estreiteza que me impunham as condições dos espíritos, e a figura de Lázaro como a de Abraão me eram familiares para fazer ressaltar a justiça das represálias e a participação dos grandes homens, que eram venerados pelo povo hebreu, nas manifestações desta justiça.

Lázaro, abreviativo de Eleazar, era um nome muito espalhado na Judéia, e Abraão, a quem a lenda convertia em um pai desumano, um sacrificador ímpio, representava ante os olhos destes homens cruéis, na infância espiritual, a idéia da obediência passiva e o modelo das virtudes religiosas.

“Lázaro, o pobre, coberto de úlceras, apanhava as migalhas que  caíam da mesa do rico, e o rico, cheio de alegria e rodeado de numerosos comensais, desvia seus olhares do pobre e fecha seu coração a toda piedade.

“A morte desce sobre o rico e o pobre. O rico sofre os tormentos  sofridos pelo pobre, e muito mais, enquanto que do fundo da Geena, onde se encontra encerrado, retumbam seus gritos. Depois sua voz se enternece suplicando uma intercessão.

“O céu abre-se, porém, somente para aumentar os sofrimentos do  rico. Avista Lázaro e depois desta visão as trevas fecham-se em seu redor”.

Por Geena eu queria significar um lugar lúgubre, sinônimo de inferno. A palavra Geena era ainda mais expressiva que a de inferno, em algumas localidades.

Na época a que temos chegado, irmãos meus, minha posição podia permanecer estacionária ainda por muito tempo. Pelo que convinha-me criar uma escola e esperar, no meio de lutas surdas e pacientes, um novo estado de cousas. Meus amigos assim me aconselhavam. Diziam-se meus discípulos e falavam-me sem descanso das aspirações do povo para a liberdade, do ódio do povo contra a família sacerdotal que reinava então. Mas eu não queria apoiar-me em probabilidades, embora não fossem tão-somente aparentes, e tinha que garantir-me contra a vergonha de escudar-me detrás da amizade, salvaguardando minha vida a expensas de minhas aspirações espirituais, entretanto era necessário afirmar meu título de Messias com a força da publicidade de meus ensinamentos, assim como meu título de filho de Deus, com a auréola do martírio.

José, e com ele alguns homens de boa vontade que compreendiam minha doutrina, cujos preceitos divulgavam, tiveram que submeter-se à minha resolução quando se demonstrou que não era possível mudá-la por meio de raciocínios. José, e com ele alguns homens de boa vontade que me rodeavam em Jerusalém, amavam-me e davam-me provas diárias disso. Depois de terem-me franqueado o caminho das honras populares, defenderam-me contra os ódios de casta. Depois de haverem-me defendido dos sectários e dos hipócritas, intentaram defender-me do furor das multidões. Depois de minha morte apoderaram-se de meus restos mortais com a intenção de honrá-los com piedosas demonstrações e impedir uma profanação à minha memória que tornava provável a crença em minha ressurreição corporal, divulgada por fanáticos, aos quais os acusadores e os negadores de Jesus, filho de Deus, teriam querido dar-lhes um grosseiro desmentido.

Meus amigos, pois, não foram culpados de nenhuma maquinação, porém preferiram dar pábulo à superstição antes que abandonar meu corpo à possibilidade de uma mácula, sem dúvida insignificante diante da razão, porém dolorosa para a alma penetrada da emanação humana, para o próprio espírito, comovido ainda pelas expressões fraternais.

Dei livre curso a meus pensamentos, cada vez mais desprendidos da vida de relação e livres dos temores humanos. Minhas formas oratórias tomaram desde este momento uma grande semelhança com as negras imagens e proféticas ameaças de João. Separei-me repentinamente dessa agradável e plácida expressão do semblante que atraía para mim a confiança e afeto de meus ouvintes, dessa dicção cheia de humildade e de benevolência, que cicatrizava as feridas da alma e provocava as resoluções do espírito. Lancei anátemas, não já como antes, no meio de transições habilmente explicadas e medidas, senão permanentes, por assim dizer, em todos meus discursos. A severidade de minhas afirmações a respeito dos tormentos da vida futura tinha o propósito de evidenciar os excessos da força bruta, certa, em lugar do direito comum. Eu acometia contra todas as alturas, queimava todos os ideais, derrubava todas as autoridades, denunciava todas as potestades da Terra diante das iras de meu Pai predileto.

“Meu reino não é deste mundo. Os que quiserem seguir-me  devem distribuir tudo o que possuem pelos pobres.
 
Felizes os que empobrecem voluntariamente; a luz acompanha-os  e a força ampara-os; a graça acumula-os e a virtude coroa-os. Eu sou o consolo e o maná celeste; a luz e o pão da vida.

“Os que acreditarem em mim viverão na abundância, o que fugir   das honras do mundo será honrado na casa de meu Pai.

“Todo aquele que ame aos homens como a seus irmãos,  será  recompensado, porém os egoístas, os orgulhosos e os hipócritas, os senhores e os poderosos do mundo serão amaldiçoados e atirados como lenha seca no fogo eterno.

“Ouvir-se-ão gritos e ranger de dentes, blasfêmias e queixumes;  mas Deus permanecerá surdo a todos os brados das trevas e a paz dos justos não será perturbada.”

Associei à minha glória futura meus discípulos mais íntimos, mas fazia depender o cumprimento de minhas promessas do cumprimento de seus deveres.

“Reconhecer-vos-ei, dizia-lhes, se tiverdes prestigiado minhas  doutrinas com vossas obras e tiverdes semeado virtudes com vossos exemplos, mais do que com vossas palavras; se me houverdes honrado com a humildade e pobreza de vossa vida, com a marcha para Deus de vossos espíritos e com vosso amplíssimo amor para com todos os homens.

“Proclamai minha lei, porém dai ao mesmo tempo prova de vossas  esperanças, desprezando os bens da Terra e dizendo como eu: nosso reino não é deste mundo.

“Acostumai-vos a defender vosso mestre, pondo em prática o que  ele mesmo pôs em prática. O exemplo impõe a fé e produz o respeito, muito melhor que as belas harmonias da linguagem e que as mais sólidas demonstrações de espírito a espírito. Os dons do espírito são improdutivos quando não emanam da ciência adquirida em um estado de pureza de intenção e de certeza de vistas; são efêmeros quando não determinam cada vez mais a emanação da fé e do amor.

“Predicai minha doutrina, porém sustentai corajosamente o direito  que tendes para predicá-la. Este direito consiste no abandono de toda supremacia humana e no sacrifício completo de vossos interesses terrestres.

“Dar-vos-ei forças para triunfar de vossos inimigos e minha casa  será vossa casa; porém, se vos tornardes prevaricadores da lei, me retirarei de vós.”

Meus discípulos alcançaram-me e rodeado de todos eles, foi como eu tive um círculo de ouvintes no Templo, e principalmente nas dependências do Templo. Entre eles havia mais denunciadores que verdadeiros crentes. O costume desses tempos, irmãos meus, era que os homens colocados em evidência por sua erudição e inclinação do espírito para as cousas públicas, se vissem honrados com a atenção dos outros homens, em todas as circunstâncias que lhes permitissem estabelecer novas idéias e sustentar uma opinião já formulada. No templo, as piedosas demonstrações eram seguidas freqüentemente de discussões científicas e de atraentes conferências, porém essas discussões científicas e essas conferências de alto valor não tinham em geral o povo como testemunha. O povo preferia as análises rápidas do que tinha havido nas assembléias, dentro das mesmas assembléias, e a multidão, quer dizer, o povo menos iluminado, porém mais impressionável, alimentava-se de emoções nos lugares públicos, e principalmente nas galerias do Templo, onde se encontravam reunidos os acessórios de uma devoção ignorante e de excitação para todos os atrativos banais da curiosidade e da vaidade humanas.

Como simples chefe de escola eu teria podido inspirar confiança aos homens mais letrados do povo, expondo-lhes o extrato das doutas assembléias e não misturando, senão com prudência, às opiniões de cada um as expansões de meu próprio espírito; mas o sentimento de meu destino era demasiado dominante em mim, para que eu me submetesse à lentidão de um êxito demorado (já falei disto ao referir-me às instâncias de meus amigos ao chegar a Jerusalém). E coloquei-me em frente dos ódios e das vinganças.

A lei judaica não representava a meus olhos senão o código grosseiro de um povo escravizado pelas forças especulativas de duas aristocracias: a da inteligência, guardiã severa da superioridade relativa; a da matéria livre, lutando sem descanso pelos direitos que dão e conservam a posse do mando feroz. Usurpação de classes privilegiadas, ações restritivas da liberdade do espírito humano criado para a liberdade, fanatismo degradante, devotas impiedades, holocaustos sacrílegos, delações e hipocrisias, eu empregava para combatê-las todo o ardor de minha alma, todas as potências de minha vontade, todos os recursos de meu espírito, através das vergonhas morais e das ignominiosas exações.

Sustentava-me nesse ardor de alma calculando os poucos instantes de vida que me restavam e alimentava e mantinha, vivas, essas energias de minha vontade, esses estremecimentos de cólera na lembrança e na contemplação de delituosos desejos, de contagiosas depravações, de covardias e de asquerosidades humanas. As sujeições do espírito me inspiravam um profundo
desgosto pela humanidade inteira. Não dizia já: “Respeitai a lei de César”, senão:

“Não há mais que uma lei e essa é a que vos trago. Todos os  homens são iguais e têm que dividir-se entre eles todos os bens da Terra”.

A contínua tensão de meu espírito para as honras espirituais ocultava-me o que estes ensinamentos tinham de defeituoso; e depois de dezoito séculos não vejo ainda o mundo de minhas aspirações senão com a intervenção da ótica de minhas esperanças.

Irmãos meus, a dependência dos espíritos da Terra terá lugar até o momento de sua elevação na hierarquia dos espíritos da pátria universal e façamos ressaltar aqui a aberração do espírito de Jesus, aberração própria de todos os espíritos adiantados, além de examinar as causas e os efeitos destas aberrações. A desproporção das luzes espirituais de um espírito, com a situação temporal deste espírito na natureza carnal, estabelece lutas e transições que se assemelham a perturbações intelectuais.

O espírito oprimido por uma ciência que se excede da força de concepção dos que o rodeiam, desvia com freqüência seu olhar dos horizontes luminosos e deixa invadir seu pensamento pelas combinações de ordem material, para associar forças diferentes para a consecução de um objetivo, senão glorioso imediatamente, ao menos aproveitável para uma glória futura. O espírito honrado por produtivas alianças no passado, de visões e de realidades cheias de promessas na hora presente, caminha com passo seguro, especialmente no meio das dificuldades e das insídias que lhe criam e lhe levantam os ignorantes e os perversos.

Em seguida este espírito desfalece e não recobra sua coragem senão convulsivamente e atira-se nas extravagâncias das idéias, de acordo com as opiniões dos homens, e dá à lâmpada que possui as dimensões de um facho incendiário. Assim procedeu o espírito de Jesus nos últimos anos de sua vida de Messias.

Para que a aplicação dos preceitos de igualdade e de fraternidade tenha força de lei, em um mundo, é necessário que a maioria dos espíritos desse mundo esteja penetrada da mesma força moral para conseguir idêntico fim. Convém que a espiritualidade se encontre muito acima da materialidade e que esta se encontre livre de todas as deprimentes formas de conservação, assim como de todas as estreitas modalidades do gosto e dos desejos

Em uma palavra: A lei de Deus, em sua expressão mais pura, não pode ser posta em prática senão por espíritos perfeitos, que se encontrem em um meio também perfeito.

Jesus era, pois, um mau espírito quando dizia: Todos os homens são iguais e devem repartir entre si os bens da Terra. Jesus, e depois dele todos os que pronunciavam esta máxima, se têm equivocado de época: Jesus e todos os que queriam ou querem o adiantamento de uma humanidade, não deviam e não devem, em circunstância alguma, determinar ações com teorias não apropriadas à inteligência dos membros dessa humanidade. Permaneçamos firmes, irmãos meus, sobre as idéias procriadoras do porvir; façamos resplandecer na solidão de nossa alma o raio de ouro que há de aquecer todas as almas; porém não arrojemos nossas esperanças, nossa ciência, nossa felicidade como brinquedo dos estudos juvenis e procuremos não expor a chama nas paragens em que sopra o vendaval.²

O porvir começa na hora seguinte, preocupemo-nos em saber medir bem a parte de cada hora. Não confiemos nossos tesouros sem saber antes a quem os entregamos; não introduzamos no mundo a confusão de línguas; falemos de conciliação e de esperança a todos, porém falemos de liberdade tão-somente com os sábios. A fraternidade sem a luz da fé é impossível. O amor separado da fraternidade universal nada mais é que um simulacro de amor. Descobri a Deus e o sabereis adorar. Descobri vosso destino e vos amareis uns aos outros e Deus vos amará. Consultai a moral que se deduz da lei de Deus e destruí as armas homicidas, em nome da fraternidade dos povos.

Sempre existirão pobres e ricos, chefes e subordinados no mundo Terra, mas a emancipação gradual dará a todos a compreensão, e da emancipação completa surgirá o bem-estar geral.
Jesus tinha que contemplar com impaciência o espetáculo da falsa devoção, da incúria moral, das ilógicas crenças, do embrutecimento dos espíritos e tratava com dureza, nas galerias do templo, aos detentores dos pobres animais destinados ao suplício, aos mercadores de objetos fúteis, de amostras de amuletos de sortilégios e de supostas imagens religiosas.

“Vós converteis a casa de meu pai em uma caverna de ladrões,  dizia ele; e atirava  ao chão as bancas, juntando o furor do gesto à cólera da voz e dos olhares.”

Os corrompidos hipócritas faziam-no sofrer ainda mais e não os perdoava em nenhuma circunstância.

“Vós sois sepulcros caiados. O olho dos homens não se detém  senão nas aparências; porém Deus vê a podridão que reina sob elas.

“Vós tendes a doçura nos lábios e o ódio no coração; vossas   esmolas, vossas preces, vossas penitências não são senão meios para enganar os homens e gozar de prerrogativas no meio deles. Porém Deus se cansará e vós sereis esmagados sob as ruínas do templo que diariamente profanais. — Sim! — Este templo será destruído e eu construirei outro, que será imortal, porque todos os homens adorarão nele a Deus, como irmãos; porque todos os homens se reunirão na fé, sendo a palavra de Deus eterna e sou eu quem a trago.

 “Pobres loucos! — dizia Jesus aos homens entregues à vida  alegre e ao orgulho; vós destruís o porvir em favor do presente e o presente foge como uma sombra; adornais vosso corpo e desnudais vossas almas; buscais as honras do mundo quando Deus solicita em vão as honras de vosso Espírito. Ajoelhai-vos diante do bezerro de ouro enquanto vossos irmãos carecem de alimentos e de roupas. Agora vos digo: aqueles que agora não pensam senão em cousas inúteis, se verão mais tarde completamente privados do necessário. Os que gozam de honras humanas, no dia de hoje, não poderão pretender senão humilhações no dia de amanhã. E todos os que se comprazem nos gozos carnais, e todos os que colocam sua felicidade na posse das riquezas e do mando, serão os pobres, os deserdados, os párias de uma nova habitação temporal; vós tereis fome e sede, ó ricos egoístas; pedireis descanso, folgazões orgulhosos; e continuareis no trabalho, sem aplacar a fome e a sede.”

Ai de mim! — Corromperam-se meus discursos, mutilando-os e aumentando-os. Deram-se elementos ao erro, preparou-se a ignorância com a mentira, atribuindo-me as seguintes palavras:

“Se eu quisesse, destruiria este templo e o reconstruiria em três  dias”.

Quiseram responsabilizar-me por todos os milagres de que me faziam o autor alguns amigos meus e dos quais meus inimigos se valeram para perder-me. Nunca disse nem fiz nada, conscientemente, que pudesse servir de base às pueris crenças na alteração das leis da Natureza, e se eu tivesse cometido este erro, me acusaria dele do mesmo modo que me acuso de fraqueza em minhas relações de afetos, de imprevisão em meus princípios, de loucos entusiasmos em meus últimos atos e do desorientado desespero em minha hora suprema.

Irmãos meus, recordemos aqui as palavras que pronunciei no decurso de minha vida de Messias; tenho que explicar seu alto significado, que não foi compreendido então, e que surge destas mesmas palavras. Referindo os fatos de minha vida de Messias, tenho que repetir palavras já pronunciadas, porque estas repetições delineiam a verdade e só a verdade deve preocupar-nos nesta confidência dada e recebida com a firmeza do livre querer e da respeitosa dependência do espírito humano na luz de Deus. Quais são as fraquezas da natureza e a vaidade dos homens em geral, eles o saberão com real sentimento de verdade, quando esta verdade lhes seja demonstrada pela simplicidade do escritor, pela modéstia e sabedoria do moralista, pela força dos princípios, pela eqüidade do juízo e pelo acordo da idéia com a expressão da idéia.

Terão o sentimento da verdade, quando a verdade não seja mais desfigurada pela mesquinhez e ambições mercantis e pelo esforço para adquirir honras de celebridade humana.

Da minha livre vontade, da minha tranqüila coragem para demonstrar a verdade no meio dos conflitos terrestres, pensai, irmãos meus, em recolher os frutos e não agraveis vossas culpas, vossa desgraçada situação de espírito, com uma falsa opinião da dignidade humana, e com um deplorável uso dessa pobre razão, de que sempre alardeais tão fora de propósito. De minhas instruções praticai uma análise séria. Não vos atenhais à forma, fazei uma anatomia de seu fundo.

Não critiqueis as palavras, nem as repetições destas palavras; compreendei seu valor e indagai o que elas vos exigem, o que vos trazem, e tudo o que vos prometem em nome de Deus.

Eu era pouco conversador durante minha vida de Messias e meu método de insistir nas afirmações atraiu para mim o apoio dos homens de boa vontade, assim como o desprezo dos homens frívolos, dos homens de orgulhosas prerrogativas, assim como as zombarias odiosas dos devotos hipócritas, a vingança dos ferozes depositários das leis sociais, iníquas e antirreligiosas.

Eu repetia-me, é verdade: porém, fazia-o com intenção, e hoje mesmo não poderia penetrar o espírito de meus leitores com os princípios da felicidade espiritual na luz divina, senão com  repetições. Hoje mesmo não saberia tornar a dizer suficientes vezes a seguinte máxima que contém todos os elementos da ciência e da felicidade:

“Mantende-vos na fé e no amor. A fé pede vossa adoração para  um Deus forte e poderoso; o amor vos dita os deveres de fraternidade. A fé ilumina o espírito; o amor faz as honras da alma. Vós não alcançareis a sabedoria a não ser pelo estudo de Deus; vós não sereis fortes senão pela concepção da fraternidade”.

Desanimado a miúdo e enfermo do corpo e do espírito, eu repousava no seio de uma família de três pessoas, da qual a posteridade se tem ocupado tanto, que me parece indispensável endireitar, também neste ponto, muitos erros e suposições. Saiba-se antes que tudo que meu hospedeiro de Betânia chamava-se Simão e não Lázaro; que se encontrava de perfeita saúde à minha chegada e não leproso. Saiba-se que, durante a enfermidade contraída depois por ele, Simão nunca chegou aos extremos de ter que passar por morto, e saiba-se finalmente que eu não me prestei de maneira alguma a esta invenção de um milagre.

Eu não conhecia a família de Simão, tampouco a Simão, antes de minha última viagem a Jerusalém, e aceitei a hospitalidade deles de preferência a qualquer outra, porque sua casa situada no sopé da colina, sobre a qual se levantava a cidade de Betânia, oferecia-me uma solidão cheia de atrativos, com a perspectiva, cheia de movimento, de Jerusalém a meus pés. Simão e Marta, sua esposa, não tinham ainda ultrapassado os vinte e cinco anos; Maria, menina de treze anos, era irmã de Simão. Ela reunia a uma grande doçura de caráter e grande tendência para o espiritualismo. Os avós dos dois ramos tinham falecido, pouco tempo antes, muito próximo uns dos outros. O lar tinha o aspecto de uma dor profunda, ainda que silenciosa, quando eu ali me instalei. Marta, encarregada especialmente da direção interna da família, empregava em suas tarefas tanta minuciosidade e um trabalho tão uniforme e executado como que com fadiga, que parecia obedecer mecanicamente a uma força motriz do mecanismo da alma. Simão era de caráter tétrico e a pequena Maria se demonstrava sempre triste, assim como os servidores, que participavam do mesmo pesar de seus patrões. Quis fazer penetrar em meus novos amigos minhas doutrinas e o consegui.

Marta foi a mais difícil de convencer. Com essa mulher ignorante e obstinada em sua ignorância, tive que renunciar a toda demonstração séria referente à vida futura; porém manifestei-me tão agradecido a seus cuidados, tão desejoso de satisfazer sua curiosidade, contando-lhe os incidentes e as fadigas de minha vida nômade, tão feliz no que me rodeava que Marta, incapaz para analisar a fé de Jesus, abraçou esta fé como o náufrago que alcança uma terra desconhecida que lhe oferece segurança e repouso.

Maria compreendia minha missão, escutava minhas conversações, ajoelhava-se diante de mim quando os demais me rodeavam e procurava apoderar-se de meu pensamento, antes que ele tivesse tomado as formas da expressão. Meu olhar se fixava ternamente nesse semblante fresco, coroado por uma fronte pensadora, como uma auréola reveladora do passado e do porvir.

Quando Marta se assombrava da atitude livre e grave da menina, eu a repreendia docemente, fazendo-lhe compreender que as diferenças no modo de manifestar-se nascem das distâncias que separam os espíritos.

“Honra-te, Marta, pelo cumprimento de teus deveres, porém deixa  esta menina expandir-se em meu amor. Cada um de nós deve acumular tesouros no meio da posição que lhe foi indicada pela divina justiça.”

As relações de Jesus, irmãos meus, têm dado lugar muitas vezes a afeições moderadas, porém com freqüência também a afeições entusiastas, que repousavam umas sobre a fé religiosa manifestada com uma voz simpática, sobre uma doutrina amplamente aplicada às necessidades do coração e as aspirações do espírito, as outras sobre a difusa aliança da esperança em Deus e do impulso para a criatura; sobre a dilatação dos sentimentos humanos, evitada sua explosão pelo pudor da alma, ou dirigidos para um nobre objetivo por uma natureza superior à que os exteriorizava.

Vejo-me obrigado a ocupar-me dos atrativos carnais dissimulados pelo cunho religioso, porque desejo afinal falar de Maria de Magdala. Se não pude ainda informar meus leitores a respeito de uma personalidade tão intimamente ligada com a minha, é porque devia fazê-lo de uma forma seguida, com a ilação necessária para conservar-lhe a importância que os fatos lhe deram. O momento parece-me agora oportuno para esta referência.

Em todas as cidades e povoações da Galiléia reuniam-se, em dias fixos, homens de boa vontade com o objetivo de fazer leitura da lei e explicar seu espírito. Estas assembléias livres, em que todos podiam pedir e obter a palavra, adquiriam novos elementos de discussão com a presença de oradores estranhos ao lugar. Estas assembléias chamavam-se sinagogas. As sinagogas convertiam-se freqüentemente em ponto de reunião dos que procuravam popularidade, e não estava em realidade a gente suficientemente compenetrada da santidade do lugar. Deixando de lado estes abusos inevitáveis, a sinagoga oferecia o quadro consolador da ligação do mundo religioso com o mundo material, da humanidade que se humilha diante de Deus, com o fim de pedir-lhe a ciência para compreendê-lo e adorá-lo.

Certa ocasião em que eu visitava uma sinagoga no perímetro que se estendia de Tiberíades a Cafarnaum, senti-me quase importunado pela atenção de que me fazia objeto uma mulher. Essa mulher, colocada em minha frente e a curta distância, dirigia-me um olhar, cuja luz e persistência obrigavam-me a baixar o meu. Esta mulher era alta, jovem e bela. Esta mulher, nascida na Galiléia, havia chegado recentemente de Sídon. Tendo ouvido falar a meu respeito, divertiu-se muito ao saber das prerrogativas que eu atribuía a mim mesmo; depois ela pretendeu estudar-me primeiro para unir-me depois à vergonha de sua vida. A terceira experiência de Maria relativa à minha pessoa teve por efeito fazer-me sua alma querida e que esse espírito, ainda distante da alma, pareceu-me digno de alcançá-la. A alma de Maria sofria pela abjeção de seu espírito. O espírito de Maria estava pervertido pelo amor impuro, bestial e delituoso dos homens. Quis dar a essa alma e a esse espírito o impulso de um amor que resplandece da chama divina, para resplandecer na imortalidade do porvir; mas, ai! Maria, dando o adeus, para sempre, aos seus desejos de loucas uniões e de alegrias intemperantes, caiu sob o jugo de uma paixão humana, da qual a alma não teve consciência, e que o espírito se obstinou em chamar paixão divina.

Depois do nosso terceiro encontro, Maria pediu-me permissão para seguir-me como faziam algumas outras piedosas mulheres que se juntavam aos meus discípulos. Eu consenti e prometi facilitar-lhe sua conversão com meus conselhos e meu apoio. Muito tempo depois me apercebi do amor carnal de Maria.

Deus deu-me a força para manter-me em minha posição de pai e de consolador; mas ela, pobre mártir, tinha que esgotar todas as amarguras do remorso, sofrer todos os desvanecimentos do espírito, todas as desesperações da alma.

Maria de Magdala levava uma vida desordenada, andava já por sete anos, quando a conheci. Ela confessou-me seu envilecimento sem acrescentar à sua confissão detalhes fastidiosos, que nos teriam embaraçado, e em seguida narrou-me sua infância com a delicada franqueza de uma alma ingênua e pura. Eu nunca me havia enganado em meus primeiros juízos a respeito deste conjunto de graças comovedoras e de crueldades vergonhosas. Eu não me enganava descobrindo um tipo nobre e casto sob a nódoa de imundos amores. Mas caí no engano ao crer que Maria seria toda de Deus, e tive necessidade de ser amparado por poderosas alianças espirituais para não ser vencido por uma afeição terrestre. Maria tinha vinte e quatro anos quando a vi pela primeira vez. Quando minha mãe veio a Cafarnaum, Maria de Magdala já havia sido recebida por meus discípulos e constatei com alegria o acolhimento natural e benévolo das duas mulheres que amei mais que tudo sobre a terra. Quando tive que demonstrar aspereza à minha mãe porque queria fazer-me renunciar a meus trabalhos de apóstolo, encontrei Maria banhada em lágrimas entre os braços da abandonada. Elas prometiam-se mutuamente uma dedicação inalterável e mantiveram sua palavra.

Maria não se encontrou comigo nas núpcias de Canaã, porém, acompanhou-me em minha última visita a Nazareth e nunca mais me deixou desde então. Voltaremos a vê-la em Jerusalém e a introduziremos na casa de Betânia, onde foi testemunha de tudo o que se passou entre a família de Simão e eu.

Esta família, constituída de três pessoas, cumulava-me de cuidados e de respeitosa ternura, multiplicava-se externamente com naturais afinidades e com simpáticas relações sociais. Esta família de três pessoas, cujos corações eu tinha reanimado e iluminado os espíritos, demonstrava-me diante de todos a homenagem de uma gratidão entusiasta, e é a um excesso de honras tributadas a meu caráter de apóstolo que deve meu amigo a mancha que acompanha sua lembrança entre os homens.

No número dos parentes de Simão, cuja lembrança me é cara, cito Dalila, esposa de um irmão de Marta, Eleazar, primo de Simão e Alfeu, também primo de Simão, porém que vivia em Jerusalém, ao passo que Eleazar habitava em suas cercanias. Do mesmo modo que Simão, também Eleazar não era leproso.

Alfeu tornou-se um dos meus fervorosos discípulos. Era um homem de elevada moralidade e lhe sou devedor de tanta felicidade íntima pela união de nossos espíritos, como de gratidão pelos atos exteriores de sua obsequiosidade.

Dalila, santa e sublime mulher; Ana, minha querida Ana, sempre tão ativa e enérgica, recebei as duas, aqui, o testemunho de minha palavra como reconhecimento de vossa virtude na fé e no amor!

Ana não fazia parte do parentesco de Simão; mas ela e seu marido foram-me dedicados desde a época em que os encontrei na casa de Betânia; o marido prestou-me muitos serviços em Jerusalém. Chamava-se Gabes.

Meus amigos de Jerusalém palmilhavam com freqüência o caminho de minha morada em Betânia, por haver julgado eu, depois de alguns dias de agitação, que se tornaria necessário afastar-me do meio das massas para fazer que meus discípulos se compenetrassem melhor da grandeza do ato que estava para cumprir. Eu o procurava assim com graves discursos, com a solenidade do enviado divino, com formas simbólicas, com palavras profundas e fáceis de interpretar de diferentes maneiras, para reunir todos os homens, fortes e fracos, livres e supersticiosos, no sentimento de meu elevado destino. Se tivesse falado unicamente de maneira a fazer-me compreender dos que raciocinavam a respeito de minhas doutrinas e dos títulos que eu tomava, haveria fracassado ante a posteridade e minha luz ter-se-ia apagado com o sopro do furacão que estava por arrebatar-me corporalmente.

Eram-me necessários os partidários do maravilhoso para sustentar o pedestal sobre o qual se levantaria minha filiação divina. Eram-me necessárias massas ignorantes para arrastar as fantasmagorias dos homens mais ou menos sinceros em seus juízos, mais ou menos interessados em seus cálculos. Eu compreendia a necessidade de empregar um silêncio hábil com respeito aos erros que assinalariam minha personalidade com um distintivo divino, e o interesse do porvir seria o que me indicaria as atitudes que devia tomar, os gestos, a frieza, a força, em meio das demonstrações furiosas, das acusações estúpidas brotadas do ódio, da embriaguez amorosa, dos dislates da credulidade, da alteração das leis naturais. Porém, confiava no meu caráter de Messias para aplainar o caminho a meus sucessores, contando com sua clarividência e com sua probidade. Eu queria, ao oferecer-me como vítima sobre o altar de Deus, agitar mais e mais essa multidão de ímpios e delinqüentes que em todos os tempos sujam seus lábios com a mentira e fazem transbordar o ódio de seus corações; porém tinha sobretudo em vista o confiar a meus fiéis mais inteligentes a consolidação de minha obra depois de minha morte.

“Esta obra é vossa obra, eu dizia-lhes. Meu Pai nos abençoará  juntos e a graça nos fará os guardiães do porvir até à consumação dos séculos. A graça adquire-se com a renovação das provas e com os espontâneos impulsos da alma para as verdades eternas.

“A graça converte-se no santuário do pensamento, na barreira  intransponível da virtude, quando o pensamento se alimentou, de habitação em habitação, com as investigações intelectuais do espírito, referentes à sua sorte, e quando também a virtude aumentou, de etapa em etapa, com a segurança de sua marcha no meio da escuridão e dos perigos.

“O pensamento não se apaga. Segue através dos mundos  comunica-se nos espaços, liga entre si os espíritos, sanciona o princípio de fraternidade e realiza milagres de amor.

“Permanecei, pois, convencidos de minha presença, ainda quando   já não me vejais, e chamai-me sempre o Senhor nosso Pai; reparti o pão e o vinho, como se meu corpo ocupasse o lugar que hoje ocupa, e dizei: este é seu sangue; esta é sua carne. E meu espírito se alegrará e o lugar vazio será ocupado, porque o desejo determina o desejo e o pensamento se introduz no pensamento,
                    mediante o mútuo desejo.

“Agora vos digo: A graça obtém-se com a fé e com o amor. Aquele   que crê em minha palavra que dê às minhas palavras um sentido que eu não lhes dou agora, com o propósito de semear divisões entre os homens para tomar uma posição de autoridade no mundo, se converterá em meu inimigo e eu lutarei contra ele e derrubarei seus projetos. Suceda isto em um tempo ou em outro, Deus medirá a intensidade da derrota a infligir-se de acordo com a duração da ofensa. Deus fará resplandecer sua luz no meio das trevas de acordo com a quota dos desejos que se agitarem no seio das sombras e com a quota dos pedidos que se tenham formado. Então Deus chamará a seu filho amado e o filho voltará em espírito entre vós, e línguas de fogo passarão sobre vossas cabeças, para instruir os homens de boa vontade, como eu faço hoje.”
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Nicodemus dava às suas visitas uma forma misteriosa que acusavam seu coração e seu espírito de fraqueza e de considerações humanas. Favorável a meus projetos do porvir, temia as efervescências do momento. Admirador apaixonado de minha doutrina, não se haveria, sem embargo, atrevido a sustentá-la diante dos demais; porém comigo e com meus discípulos, Nicodemus expandia-se e levava aos espíritos a convicção de que se sentia honrado por minha amizade, porque eu mesmo me via honrado pela filiação divina.

José de Arimatéia amparava-me com todo o calor de sua alma, com toda a veemência de um pai terno e infatigável, como assim também com toda a sua importância social. Fazia causa comum comigo e se haveria também exposto à morte, se eu não lhe houvesse demonstrado, de uma maneira peremptória, a inutilidade de seu sacrifício e a necessidade, pelo contrário, de seu concurso depois do meu desaparecimento. José de Arimatéia era com quem eu mais contava para dirigir o que eu havia fundado e tudo o que pretendia afirmar com minha morte corporal e com minha ressurreição em espírito.

José era o meu confidente mais seguro e precisava de sua inteligência para tirar partido das menores circunstâncias favoráveis à nossa causa, como também de sua dedicação em cumprir e em fazer cumprir minhas últimas disposições. José me havia recebido menino para ajudar os desígnios de Deus a meu respeito; ele teria também que, ao receber meu corpo privado de vida, continuar a servir a Providência com os obstáculos que poria aos propósitos delituosos dos homens.

Marcos pertencia a uma família de boa posição de Jerusalém. O pai ocupava um emprego importante de governo apesar de ser hebreu, porque os romanos nesses tempos não estabeleciam diferenças entre os homens de nacionalidade e religião diferentes, sempre que eles lhes pareciam merecer serem elevados, pela inteligência do espírito e elevação do caráter. Os romanos, por outra parte, desdenhavam a opinião dos homens que submetiam sob seu domínio, e buscavam sempre os mais hábeis para desempenhar os deveres dos cargos importantes.

Jerusalém tinha sido agitada por graves sedições populares; porém, na hora a que chegamos, ela apresentava um aspecto de completa calma. Persuadidos da inutilidade de seus esforços, os hebreus suportavam com paciência um despotismo orgulhoso. Este despotismo não chegava a exercer pressão sobre as crenças religiosas, pois, pelo contrário, todos os credos encontravam apoio na indiferença dos governos. Jerusalém, como todas as dependências do Império, encontrava-se sob a tutela de um depositário dos poderes de César, governante sem controle e absoluto, em seus juízos como em suas disposições. A responsabilidade da administração civil pertencia, certamente, a uma magistratura tirada das escolas sustentadas pelo Estado, porém a mesma lei se curvava diante destes invasores arrogantes, que não conheciam outra moral a não ser a sua própria vontade e não conheciam outro obstáculo para sua vontade que o da força material.O direito, a lei, eram letra morta para esses bárbaros quando se tratava de satisfazer um capricho do superior ou de esmagar um escravo rebelde. Os tempos destes bárbaros atropelos não desapareceram ainda e isto é o que me faz deter aqui para condená-los. A guerra e seus horrores devastam ainda o mundo da Terra; eis por que aproveito a ocasião para amaldiçoar as instituições de minha época; eis por que me refiro à história geral ao escrever a minha.

Para ingressar nas escolas era necessário ser parente próximo de algum soldado morto ao serviço da pátria ou que se encontrasse ainda sob as armas. Qualquer outra consideração, como seja: condição social, religião, nacionalidade, não tinha importância. Os estudantes tinham que exercitar-se no manejo das armas e recebiam uma soma em dinheiro se se alistassem voluntariamente. O serviço militar obrigatório não estava em vigor para eles.

Marcos, o estudante, era quase um revolucionário, tanto detestava todas as opressões. Eu o conduzi para o sentimento religioso, fazendo-o saborear os atrativos de uma doutrina que ensinava a fraternidade entre os homens sob a dependência da paternidade divina, que aconselhava o valor na adversidade, a modéstia no meio da fortuna, o desprezo pelas injúrias, a comiseração para todos os culpados. Marcos não me amou, senão que me adorou. Eu havia-me ligado muito facilmente a duas naturezas ingratas. Recolhi horríveis desenganos, devido principalmente à minha primitiva facilidade de observação.

Derramei amargas lágrimas pela fragilidade de algumas relações, pela fraqueza de minhas preferências, mas gozei também das delícias de profundos e duradouros afetos, e nesta história, com freqüência penosa, elas voltam à minha memória, com emoções igualmente agradáveis, às que experimentava quando a sua realidade reanimava meu espírito intumescido, consolava meu coração, levantava minha coragem, apresentando-me à Humanidade sob seu mais nobre aspecto.

Marcos esqueceu por mim sua fortuna, que não podia oferecer-me, porque ainda não gozava dela, sua família, que o tratava como um visionário, seus companheiros de prazeres, seus hábitos ociosos, suas fantasias, suas distrações e também suas horas de trabalho, que dizia substituí-las vantajosamente permanecendo a meu lado. O belo caráter de Marcos deveria ter produzido a mais favorável impressão em meus discípulos; pelo contrário, muitos tiveram ciúmes devido ao nosso recíproco afeto; outros não viram no abandono de sua posição mundana mais que uma fraqueza momentânea de suas faculdades intelectuais; outros procuraram os motivos deste abandono na paixão que devia ter-lhes inspirado alguma das mulheres que faziam parte do círculo de meus ouvintes.

Em troca José de Arimatéia regozijava-se do que ele chamava uma conversão, e os mais clarividentes, os mais preparados, amaram e respeitaram ao valoroso discípulo de Jesus, que o seguiu até o Calvário, que beijou seu corpo ensangüentado e desfigurado, que ajudou a José e a Nicodemus na tarefa noturna, que morreu jovem, oprimido pela dor, cheio de esperanças, porque Jesus tinha morrido e ele bem depressa tornaria a vê-lo.

A facilidade de juntar-nos dava atrativo às nossas reuniões e nossa liberdade não foi nunca perturbada por visitantes indiscretos, nem por preocupações de perigos imediatos. Meus discípulos de Galiléia e eu formávamos uma só família. Nesta família é preciso incluir as mulheres vindas também da Galiléia, a qual constituía um conjunto bastante complexo; porém a casa de Simão era vasta, posto que muitas casas coloniais dependiam da habitação principal.

Nomeemos as mulheres vindas de minha querida Galiléia para servirem-me até à minha morte. Passemos rapidamente por cima das primeiras informações e fechemos este capítulo, irmãos meus, com o sentimento de nossa grandeza espiritual. Breve nos tornaremos a ver por efeito desta grandeza, que derrama a luz divina sobre as fraquezas humanas. As mulheres  vindas da Galiléia eram: Salomé, Verônica, Joana, Débora, Fatmé e finalmente Maria de Magdala. De Salomé já falei; Verônica era viúva, ela havia cuidado de mim como a um irmão e respeitado como a um apóstolo de Deus, desde os primeiros dias de minha permanência em Cafarnaum. Joana, Débora, Fatmé, muito jovens para encontrarem-se ao abrigo das calúnias, riam-se delas, porém com afabilidade, derramando sobre todas, e sem preferências, os atrativos de sua espiritualidade, a generosidade de seus corações.

As três gozavam de um discreto bem-estar e diziam, rindo-se, que nós éramos seus irmãos e nos correspondia uma parte desse bem-estar, como mais tarde o teríamos no reino de Deus.

Minha mãe encontrava-se em Jerusalém desde alguns dias, porém eu não o sabia. Eu havia-lhe exigido o sacrifício de que não me seguisse e que esperasse um aviso meu. Porém Maria de Magdala mantinha relações com minha mãe, e, para combinar melhor os meios de arrancar-me à morte, ela pediu com insistência para que se trasladasse para uma casa das proximidades de Jerusalém. Meus irmãos José e Andréa foram também a Jerusalém. O firme propósito deles era o de apostrofar-me e de desmentir publicamente minhas palavras, insinuar à multidão de que eu me encontrava tomado de loucura, para reclamarem a força a fim de separarem-me da companhia de meus discípulos. Esta conspiração era por mim bem conhecida, assim é que preparei-me para fazê-la fracassar e resolvi para este fim permanecer mais tranqüilo ainda em meu retiro. As duas Marias ignoravam o projeto de meus irmãos. Elas tinham esperanças na intensidade de seu amor, para fazer-me descer da glória de Messias à ignomínia da fraqueza. Para mim, o perigo era este e a luta tinha que ser horrível.

Irmãos meus, no duodécimo capítulo deste livro vos exporei minhas últimas lutas da carne com o espírito; minhas supremas angústias de homem; minhas indecisões no sacrifício e, finalmente, a vitória definitiva da espiritualidade sobre a matéria.

Nós faremos também de minha morte, precedida de tantas tentações dirigidas à natureza humana, o objeto de um estudo profundo sobre o martírio imposto a um homem pelo homem, e tiraremos esta conclusão indestrutível, que a vida humana encontra-se sob a dependência de Deus, e que destruí-la é infligir um insulto ao Criador.

Irmãos meus, vos abençôo em nome de Deus nosso Pai

¹  Quer dizer que não seja dominado pelo apego à vida material, senão que se mantenha superior ao instinto de conservação e a todas as atrações, gostos e desejos da vida dos sentidos. — Nota do Sr. Rebaudi.


² Do mesmo modo falam os teósofos, ao passo que os espíritas, de acordo com as palavras do mesmo Jesus, “Não coloqueis a lâmpada debaixo do alqueire”, praticam a mais ampla propaganda de seus ideais. Os modernos espiritualistas, pelo contrário, tomam o caminho do meio termo e talvez interpretem melhor assim a idéia de Jesus. — Nota do Sr.Rebaudi.