Passa já da hora o vosso despertar espiritual . . . Saiba que a tua verdadeira pátria é no mundo espiritual . . . Teu objetivo aqui é adquirir luzes e bênçãos para que possas iluminar teus caminhos quando deixares esta dimensão, ascender e não ficar em trevas neste mundo de ilusão . . .   Muita Paz Saúde Luz e Amor . . . meu irmão . . . minha irmã

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

CAPÍTULO XII – Livro: Vida de Jesus ditada por Ele Mesmo Causas da morte de Jesus. Oposição de sua família e amigos a seu decidido propósito de pôr termo a seu messianismo com o martírio. Seus irmãos pretendem fazê-lo passar por louco, mas ele consegue da mãe que os retenha na Betânia. Prossegue entretanto o Mestre, com afinco, a exposição de suas doutrinas, fustigando os sacerdotes, de qualquer religião que eles sejam, que se apóiam na força e chegam até ao homicídio para impor o que eles crêem ser a luz de Deus, quando ele ordena pelo contrário: “Não matarás”. Fustiga do mesmo modo os depositários da força pública, que não a cumprem para o bem de seus subordinados. Jesus, entretanto, pressentia a proximidade de seu fim e não perdia tempo, ativando pelo contrário sua propaganda.



Irmãos meus, as causas de minha morte podem definir-se assim:

“O delito de Jesus, no passado, foi o de facilitar as sedições  populares, propalando por intermédio dos sacerdotes, suspeitas de conivência com os pagãos.

“O delito de Jesus, mais tarde, foi sua inclinação para o culto  fundado pelo próprio Deus, e esta inclinação para o culto resultou de maior gravidade e de maior poder de sedução pela qualidade de filho de Deus que Jesus se atribuía.

“A lei mosaica tinha que alcançar a Jesus a quem tinham que  infligir-lhe o suplício da lapidação. Porém, a opinião da casta sacerdotal precisava da adesão dessa mesma autoridade que com freqüência se desinteressava das questões que suscitavam entre os hebreus, e precisava-se também do concurso popular para o cumprimento da vingança do clero. Pelo que tomaram-se das últimas pregações de Jesus provas de culpabilidade como perturbador e abolicionista das leis civis, além das religiosas, para fazê-lo cair sob a jurisdição de Pôncio Pilatos, procurador romano. E perante o povo Jesus foi acusado de sedução e pacto com o espírito das trevas”.

Refiro aqui os motivos de minha condenação, motivos cujo valor discutirei depois, ao mesmo tempo que darei uma explicação de cada um dos delitos que me imputavam, por efeito de uma reprodução inexata de meus ensinamentos. Isto nos conduzirá a extensas explicações e terei que honrar a coragem de meu intérprete, que sofrerá por estes minuciosos detalhes, mais do que tenha sofrido por causa das anteriores pressões de meu espírito.

José e Andréia preparavam as humilhações que amarguei mais tarde, referindo lamentáveis episódios de minha infância, referentes aos últimos dias de meu pai e ao abandono de minha mãe. Eles agregaram à expressão de sua falsa piedade pelo que designavam como minha pobreza intelectual, a difamação de minha vida íntima e de minha qualidade de filho de Deus, por meio de vis espionagens, com juízos desleais e com uma designação burlesca em lugar da que eu havia tomado.

Não busquemos, irmãos meus, nos livros do antigo estilo uma explicação do título de filho do homem, que se me outorgou por escárnio, como acabo de dizer. Desembaracemo-nos das tenebrosas histórias para poder elevar nossa narração até à simplicidade do espírito, que tudo o esclarece, Não levantemos, por outra parte, uma desaprovação demasiado severa sobre certas personalidades desde que o fermento das idéias e o impulso do espírito resultam muito a miúdo de causas obscuras para a inteligência humana.

Defendamos nossa alma e nosso espírito contra todos os entusiasmos e contra todo o preconcebido. Façamos distinção entre as diversas graduações, porém não maldigamos ninguém. Façamos da vida de Jesus um código de moralidade para todos os homens e esforcemo-nos em demonstrar que a vida humana deve ser respeitada, porque ela é uma emanação da alma divina. A vida humana encerrada nos limites impostos pelo Criador é um descanso em meio do caminho da imortalidade. A vida humana deformada pelo vício, encurtada pelos excessos, torturada pelos ódios, despedaçada pelo delito, representa uma espantosa falta de razão que revela a bestialidade da natureza, ainda não domada a tendência para a bestialidade primitiva, por causa de um regresso na ordem ascensional; as duas, bestialidade de natureza e bestialidade regressiva, constituem os verdadeiros flagelos do mundo. A primeira revela a força brutal da besta; a outra dirige as tendências da besta como que para fazê-las mais mortíferas. As duas desenvolvem, mediante o contato, os males asquerosos da alma, do espírito e do corpo; as duas marcham entre o sangue, alimentam-se de orgias, adormecem, vencidas pela saciedade, sobre ruínas.

Representando-vos a Jesus nos últimos momentos de sua vida de Messias, irmãos meus, não alimento a idéia de chamar vossa atenção tão-somente sobre Jesus, porém, sim, peço que todos os que leiam estas páginas reflexionem profundamente a respeito dos ensinamentos que elas oferecem à sua consideração. Não tenho mais que um propósito, e este é o de converter em melhores aos homens, propósito que será alcançado se eles meditarem sobre minhas palavras.

Defino as feridas de minha alma para caracterizar a aproximação que existe entre as almas humanas. Explico a culpável intenção dos que me desconheceram para voltar a trazer para uma suave resignação aos que se vêem caluniados. Declaro inimigos meus aos perspicazes, aos orgulhosos, aos depravados, reconhecendo em troca como novos discípulos aos homens de boa vontade, aos humildes, aos deserdados de bens do mundo, aos famintos dos tesouros eternos. Sempre digo: O que não é por mim é contra mim. Felizes os que fazem provisões para a vida futura e que caem na pobreza voluntariamente durante a vida presente; o reino de Deus pertence-lhes.

Buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. A luz e a verdade são dons de Deus, espalhai-as amplamente entre todos os que as solicitam, com o ardor de uma alma livre e com um espírito desejoso das cousas celestes.

Porquanto eu sou sempre o Messias, filho de Deus, que baixa da luz para amparar tudo o que já amparei, para defender tudo o que já defendi, para combater tudo o que por mim já foi combatido.

Porquanto eu venho para destruir e para reconstruir, para demonstrar a meus discípulos qual é o reino a que eles devem aspirar. Tal reino não é deste mundo. Não há mais lugar para equívocos. O espírito liberto das sombras da natureza humana ilumina-se de luz divina, não lhe sendo já possível desviar-se por ignorância nem diminuir-se por temor das crueldades dos espíritos humanos. Este espírito, desde a elevação no meio da qual Deus o admitira, baixa a este mundo para trazer-vos a concórdia e a esperança, proclamar a imortalidade e o amor universal, em nome de Deus. Volvamos, irmãos meus, ao ponto em que vos deixei no final de meu último capítulo.

A tranqüilidade de que eu gozava na Betânia parecia-se ao silêncio que precede às explosões, porque em Jerusalém, o ódio surdo dos sacerdotes começava a manifestar-se ostensivamente e o povo, de cujas simpatias eu gozava desde as bravatas que lançara nas proximidades do Templo, prestava ouvidos complacentes aos murmúrios que se faziam correr a respeito da inépcia e falsa virtude de minhas máximas, da vaidosa pretensão de meu espírito, que eu me haveria comprazido em evidenciar, conjuntamente com as demonstrações de minha pobreza e abnegação corporal.

Minha mãe encontrava-se em Jerusalém devido a um chamado de Maria de Magdala. Ela era tomada nesses momentos duma inquebrantável vontade. Negou-se a voltar para Nazareth e me vi obrigado a contemplar até minha morte essa sua tristeza que constituía uma viva censura para meu sacrifício, essa dor que penetrava em minha alma, enfraquecendo-a. Maria de Magdala empregava, ante mim e minha mãe, toda essa energia que pode arrancar-se da paixão e de toda essa doçura e suavidade que nasce da prece. Retorcia-se nos espasmos do desespero ou ajoelhava-se piedosamente para pedir a Deus o poder de abalar minha resolução. Ela arrojava-se a meus pés, para manifestar me, com voz baixa e trêmula, toda a felicidade de um amor puro, porem invasor dos ímpetos da alma e das faculdades do espírito. Depois levantava-se, abraçava minha mãe e cobria-a de beijos frenéticos e suplicava-me que salvasse as duas da morte e do inferno, aonde seriam arrojadas por meu suplício e minha glória.

A repetição de tais demonstrações produzia no meu espírito o efeito de acidentes que interrompem o curso dos pensamentos. Sentia-me prostrado pela emoção quando algum feliz abalo vinha arrancar-me dos braços maternos que pretendiam reter-me com seu contato ardente, capaz de tornar-me louco ou covarde.

Maria de Magdala não era estimada somente por minha mãe: todos os meus discípulos e as mulheres vindas da Galiléia a estimavam. Marta, Simão, a jovem Maria notavam nela as sólidas condições da mulher desenganada e cansada dos prazeres mundanos, ao mesmo tempo que descobriam-lhe o semblante resplandecente pela graça e suaves condições da alma. Maria de Magdala era mais instruída que a maior parte dos que me rodeavam. Ela me era devedora do desenvolvimento de seu espírito e da certeza de seu conhecimento, porém, ainda antes de nos havermos encontrado, ela possuía já mais conhecimentos do que possuíam em geral as mulheres desse tempo. Maria teria sido perfeita sem a concentração de sua alma para uma pessoa, se bem que amava, apesar de tudo, a Deus com sinceridade. — Pobre Humanidade!

Propus a minha mãe que me acompanhasse a Betânia, para que não oferecesse a meus irmãos um apoio com sua presença, porquanto não dissipava neles o desatinado propósito de seguirem-me. Pus deste modo fim às nossas penosas reuniões. Minha mãe dedicava-me mais carinho do que aos seus outros filhos. A elevada opinião que ela formara a respeito de meu destino, quando meu tio Tiago quis participar de meus trabalhos e de meus perigos, serviu para exaltar esse sentimento filho dos cuidados e inquietações que lhe havia proporcionado o mais débil e menos simpático dos membros de sua numerosa família.

Depois de nossa última entrevista em Nazareth, minha mãe alimentava um só desejo: salvar-me da morte. A descoberta que ela fez do profundo afeto de Maria proporcionou-lhe uma esperança à qual associou todos os outros recursos pessoais, que considerou úteis para seus fins. — Mãe infeliz! — Cem vezes mais infeliz que se houvesse compreendido desde o princípio a inutilidade de seus esforços. — Mártir humilde! — Mártir cujo martírio foi cem vezes mais cruel do que se houvesse aceitado, como uma ordem de Deus, a renúncia e a separação.

Irmãos meus, a expansão de uma alma de Deus não basta para dar-lhe a suprema compreensão da fé, e minha mãe, minha terna mãe, impregnada das teorias de uma religião imperfeita, não podia, apesar de sua confiança em mim, renunciar a tudo o que havia acreditado e praticado até então.

A liberdade da alma adquire-se por meio da força intelectual do espírito. Por força intelectual não entendo as aptidões mais ou menos pronunciadas para o estudo das ciências exatas, senão o impulso positivo da idéia para a solução de tal ou qual problema colocado no campo do infinito; entendo determinar a força intelectual do espírito, alimentando-a com o desejo fervoroso de conhecer as origens e imprimindo-lhe o cunho de uma vontade inalterável de avançar sempre e mais.

Repelir uma crença que se apóia tão-somente sobre velhos preconceitos e errôneas referências, para abraçar uma fé radiante de verdade, no meio de um céu de luz fascinadora e infinita, é um fato que não pode produzir-se senão com a derrocada das aspirações materiais, com a absorção do princípio terrestre do espírito efetuado pelo princípio espiritual do mesmo espírito. É então que se rompem as sujeições da alma e que ela, possuída de sua liberdade, segue o espírito que se encontra na posse de suas forças.

Deus não se revela à alma que, embora amante, se torna escrava de um espírito que age unicamente por solicitações e não por própria ciência e consciência. Deus, pois, não se revelava se não em parte, à mulher piedosa, porém ignorante das fadigas que transportam para as delícias da fé, dessa fé sem contradições e sem terrores, que paira acima dos perigos e sorri no meio das torturas, que recebe luz de origem divina para cumprir todos os deveres, destruir todas as humilhações, avançar para todos os heroísmos.

Se minha mãe houvesse facilitado minha missão com sua fé, irmãos meus, ter-me-ia poupado uma grande amargura durante as lutas de meus últimos dias, entre as recordações da vida que fugia e as promessas da vida que se aproximava. Se minha mãe e Maria de Magdala se tivessem associado em toda a plenitude da fé, dentro de minhas crenças, meu espírito ter-se-ia mantido à altura de minha família espiritual, mas pelo contrário a tendência carnal desses dois amores diminuiu minhas forças e preparou minha fraqueza sobre o madeiro do sacrifício. Minha fé não se dobrou. Quando a fé se estabelece sobre a realidade demonstrada materialmente, não pode enfraquecer-se; mas a natureza humana humilhava tão profundamente o espírito agitado sob a pressão das fantasias contraditórias, que tinha que fazer um esforço para reconquistar essa liberdade tão querida e tão necessária para um apóstolo de Deus.

A dependência dos espíritos aumenta em relação com a inferioridade do mundo em que habitam, e acrescento que apesar das luzes espirituais e da força intelectual de um espírito, ele tem que sofrer mais ou menos deploravelmente pelas sombras lançadas sobre seu ideal e pelos assaltos dados às suas convicções, em um mundo em que todas as crenças religiosas se traduzem tão somente com demonstrações referentes ao passado, ao porvir, ao presente e à honra do espírito.

A família dos homens é constituída de alianças sem homogeneidade e sem força coletiva para alcançar seu objetivo. Estas alianças se convertem em lamentáveis provas para os espíritos honrados com a elevação alcançada precedentemente na jerarquia moral e intelectual.

No exercício de sua liberdade o espírito encontra a calma necessária para a sua fé, o ardor para as concepções atrevidas e a decisão para dirigir sua obra. Porém, pode acaso esta liberdade ser completa e duradoura? Desgraçadamente, não! — Não, porque a triste dependência dos espíritos, uns dos outros, deve existir para o estabelecimento da justiça de Deus nos mundos em que a destruição das espécies inferiores por outras espécies superiores, assinala uma marcha progressiva até chegar ao homem; nos mundos em que a enorme desproporção dos espíritos entre si provém de causas laboriosamente definida pela ciência que demonstramos, ciência que reconhece a imutabilidade das leis naturais. Agora, constituindo uma lei deste mundo a dependência material para os espíritos, ninguém pode iludi-la, e o espírito superior que se encontra aqui de passagem, conquista uma liberdade provisória ou se entristece na escravidão de sua vontade.

As fraquezas da fé são inerentes a toda a crença sustentada com o auxílio de concessões da razão. As fraquezas na fé constituem motivos de constantes esforços para todos os que praticam uma religião sem compreendê-la. O fanatismo, que consiste em uma fé ardente privada da razão, deve ser considerado como uma enfermidade do espírito. A fé verdadeira jamais se separa da razão. Ela assinala uma personalidade convencida dos atributos divinos e esta personalidade vê-se obrigada a curvar-se perante os deveres que daí lhe resultam.

Qualquer que seja a causa diretriz do dever, ela é o resultado de lutas, de claudicações, de faltas anteriores do espírito, e os deveres futuros do mesmo espírito se constituirão do mesmo modo, sobre a base de seus meios atuais.

Somente com muita lentidão a natureza humana pode desprender-se de suas tendências carnais, pois só a fé verdadeira proporciona o estímulo da coragem, a perseverança nas empresas, o desprezo pelos perigos, e o estudo dos deveres torna-se cada vez mais fácil, a matéria desgasta-se ao conquistar o espírito novas posições, o qual se eleva de etapa em etapa até o aniquilamento da matéria.

Irmãos meus, a fé verdadeira honra a inteligência laboriosa que percorreu diversos caminhos, os quais lhe serviram de protetores. A fé verdadeira é o prêmio de todos os espíritos anciãos, cujo adiantamento intelectual não se vê deprimido pela decadência moral.

Fé resplandecente! Tu nos confias o segredo de nossos destinos. Tu nos dás a explicação de Deus, da sublimidade de suas leis, do poder de sua justiça e de seu amor; tu apontas o dever com a certeza de seres compreendida... O dever descansa no cumprimento da lei geral e nas obrigações morais, estabelecidas em nome dos princípios do direito individual. A lei geral, princípio de direito individual, emancipação, deduzida de uma criação inteligente; imortalidade, conseqüência da perfectibilidade; vós exibis o espírito humano ao desprezo das grandezas universais, porque o espírito humano pratica ou aprova o homicídio.

A família humana ultrapassa todos os erros da razão, quando afirma o direito de morte. Deus, árbitro soberano dos espíritos, concede-lhes o corpo como instrumento, e o corpo conserva-se mais ou menos tempo, segundo a direção que lhe é impressa pelo espírito e o lugar habitado pelo espírito e pelo corpo.

Decrescimento antecipado de forças, ou debilidade de nascimento, intermitência de saúde e de enfermidade, desenvolvimento feliz ou extenuação prolongada, amplitude de manifestação ou opressão servil, decadência natural ou acidentes fortuitos, tudo isto demonstra o cansaço atual ou o cansaço precedente, tudo isto explica a disciplina universal por meio da prova e da reabilitação, e rechaça os nomes, os mais monstruosamente estúpidos como: Deus dos exércitos, Deus vingador, Deus ciumento, Deus terrível.

Vis assassinos, defensores embrutecidos de uma causa má, defensores sagazes de uma causa incompreensível, heresiarcas realmente convencidos ou valentes apóstolos de uma falsa religião, que julgais verdadeira, todos vós sois mais ou menos culpados diante de Deus e Deus vos julgará.

Delinqüente endurecido, hás de permanecer perturbado enquanto não apareça o arrependimento como indício de castigo e a expiação voluntária te seja levada em conta como atenuante. Mas, chegado a este ponto, poderás trabalhar sob as vistas de Deus e teu trabalho será recompensado. Pobre ignorante! Hás de vegetar entre inquietações e indecisões, até à aparição de uma luz distante que irá aproximando-se e tornando-se cada vez mais visível.

Livres ou encarcerados, mestres de verdade, discípulos conscientes do erro, Deus vos terá em conta as circunstâncias desses erros, da causa de vossas fraquezas e reparareis vossas culpas e gozareis das honras devidas às reparações. Assim é a justiça de Deus. Ela levanta os maiores culpados, ordena a emancipação, leva em conta os trabalhos, pesa os atos de valor, prepara novas glórias a seus Messias, depois de haver purificado seus espíritos, ofuscados pelas glórias precedentes.

Justiça dos homens, quando chegarás a ser uma cópia da justiça de Deus?

(Irmãos meus, emprego aqui a palavra justiça, para designar vossa força social; mas vossa força social, encontrando-se privada da idéia que representa a palavra justiça, reconheço que esta palavra é deficiente e continuarei empregando-a tão-só para ser compreendido.)

Justiça dos homens, a que deixa envilecer-se com todos os vícios uma forma humana, e que, em um momento dado, toma esta forma humana e mata sob o pretexto de dar um exemplo de que precisa a sociedade, embebida das mais abomináveis máximas de imoralidade e desprovida do sentido intelectual até o ponto de, por uma parte, os mandamentos de Deus, continuamente repetidos, não serem jamais observados, e, por outra parte, negar-se a existência de Deus; justiça dos homens, a que decreta a morte com o sentimento do dever cumprido, que se apóia na mentira ao invocar a Deus para matar, e que resulta sempre como uma conseqüência dos instintos da natureza bestial, qualquer que seja a crença religiosa de que se alardeie!

Depositários da força social, os postos que vós ocupais neste mundo de provas são conseqüência natural das dependências humanas e preparam outras dependências humanas. A expressão de vosso poder, não havendo tido jamais causa motriz à emancipação dos espíritos e à justa distribuição dos auxílios materiais, constituirá sempre uma vergonha e uma condenação para vós.

Alcançareis o sentimento de vossa inferioridade na lembrança das explosões de vaidade de vosso orgulho e sofrereis a terrível pena de talião, aplicada inexoravelmente em todos os casos de sangue derramado deliberadamente ou com a fria crueldade de uma inteligência humana. Eis, ó depositários da força social!, os castigos aplicados a todos os homens que tenham dirigido outros homens, sem antes iluminarem-se com o sentido moral e intelectual dos seres superiores.

Justiça de Deus, a misericórdia te acompanha, posto que deixas uma porta aberta para o arrependimento. Justiça dos homens, acompanha-te a mais espantosa demência, pois que, ou nada sabes da imortalidade, e então jogas a um precipício sem fundo todos os pensamentos cuja origem não podes explicar, essas pulsações que fazem palpitar outros corações, essas forças que parecem destinadas a produzir mais do que têm produzido até este momento,¹ ou tens noções a respeito da imortalidade, e por que então te atreves a dificultar o caminho para a imortalidade?

Espantosa demência! Já o disse, Justiça humana, Jesus como todos os condenados, que têm tempo para isso, podia tentar iluminar-te para salvar sua vida, somente que Jesus devia considerar-te suficientemente iluminada, e não se defendeu. Justiça humana, pergunta a teus mártires pelas diversas fases de sua agonia; todos te dirão que jamais tinham amado tanto como nesse momento, aos que estavam para deixar. Todos oferecerão minuciosos detalhes a respeito da calma fingida e dos alardeados atos de coragem, que depõem em favor de sua valentia no mesmo momento em que o coração geme despedaçado pelas ansiedades da dúvida, da vergonha, dos remorsos e a naufragada esperança; quando a alma treme em frente da horrível visão que lhe proporcionam os aparatosos acessórios do suplício, inventados pela maldade no meio de suas orgias.

Grande Deus! Quanto sangue derramado sobre esta terra! Tremo ao pensar no passado, no porvir, no presente, em todos os países, em todas as religiões, em todas as origens, em todas as castas, em todas as sucessões, em todas as ambições e até em todos os caprichos manchados de sangue, e dirijo a todos os mártires minhas reminiscências de mártir, e elevo, com força, minha voz a Deus, suplicando: Piedade, misericórdia, Pai meu, para estes homens, que uma sociedade perversa impeliu para o delito, por meio do ateísmo, e aos quais castiga imediatamente com o delito. Digo a todos os justos: Como vós, sofri pela separação da carne, como vós fatiguei meu espírito na contemplação das misérias morais, como vós duvidei da utilidade de minha vida. E nesse momento solene em que a natureza luminosa do espírito se turba sob o peso das aflições da vida corporal, nesse momento precursor de minha liberdade, a elevada idéia de Deus pareceu fugir-me e meu espírito encheu-se de dor e de pesaroso recordar.

Ai de mim! As explosões de uma alegria grosseira, os insultos de um povo enganado, o abandono da maior parte dos que me amavam, o desespero das mulheres que assistiam minha morte, a opressão de uma intensa sufocação, todas as lívidas harmonias das últimas torturas da alma e do corpo, lançaram em meu espírito uma profunda tristeza que rompeu nesta queixosa prece:

“Pai meu, por que me abandonaste?

— Mártires, maior que a  vossa, foi minha fé; mas se desmaiei ante as atrocidades da ingratidão humana, se senti entorpecer-se minha vontade e titubear meu amor fraterno, foi porque as dependências dos espíritos se convertem em escolhos para os grandes caracteres, quando a força do alto não os ampara suficientemente contra os embates que os assaltam de baixo. É que tinha ainda demasiadas ligações para que pudesse concentrar-me somente em Deus.

Mártires, a grande voz de Deus vos diz por minha boca: O espírito  eleva-se rapidamente no estudo das leis eternas, devido a uma morte imposta violentamente, quando esta morte não é o termo de uma vida manchada pelo homicídio.”

Irmãos meus, que um homem depravado levante sua mão sacrílega contra uma vida humana, não significa de maneira alguma que uma quantidade de homens tenha o direito de matar o assassino, porque o direito de morte só pertence a Deus e não pode ser um meio para uso das criaturas. Qualquer que seja a forma dada ao assassinato, o direito de assassinato não pode existir, porque Deus não pretendeu alterar tacitamente e segundo as circunstâncias, as palavras: Tu não matarás. Conclusão: A aplicação da pena de morte é um insulto ao Criador.

Outra conclusão derivada do mesmo mandamento, tu não matarás, é: A guerra e todos os atos que inundam a terra de sangue constituem negações do princípio divino e ao mesmo tempo asquerosas saturnais do espírito em delírio.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A este respeito, irmãos meus, é necessário fazer ressaltar a lucidez da alma, a penetração do espírito. Nunca deveis atribuir a causas sobrenaturais as faltas que são o fruto de vossa incúria, as faltas cometidas por vosso livre arbítrio, os acontecimentos derivados de uma ação da vontade, de um acordo ou confusão de idéias, de um capricho furioso ou de um estado de sonolência.

Nosso destino, é certo, apóia-se no passado, mas é também incontestável que ele melhora ou se agrava devido às honras ou às vergonhas do espírito e que estas honras e estas vergonhas preparam o porvir. Minha morte voluntária cerraria minha obra, porém nada me obrigaria a uma morte voluntária. Eu era entretanto um Messias destinado a sofrer pelos homens e também a morrer por eles, posto que na época que eu vim à Terra como Messias, os homens conduziam à morte a seus Messias. Porém, repito, eu podia fugir, e se minha hora estava próxima era porque, querendo elevar-me pelo martírio, via que não era possível alongar a luta.

Judas atraiçoou-me, não porque estivesse fatalmente predestinado para semelhante ato, dependente do meu ato pessoal, senão porque, seu caráter ciumento o impelia à vingança. Se eu tivesse evitado o suplício, Judas teria encontrado outro meio para demonstrar seu ressentimento.

Suponhamos que os homens são menos cruéis agora que quando eu vim à Terra como Messias, do que deverão resultar algumas modificações nos sofrimentos preparatórios da morte e nos da própria morte. Por que os Messias estão destinados a grandes sofrimentos nos mundos inferiores? Porque os Messias trazem verdades e nos mundos dominados pelas tradições da ignorância não podem ser aceitas as verdades senão à força de trabalhos, de humilhações, de lutas heróicas e de longa desesperação, até à morte, quaisquer que sejam as peripécias desta morte.

Regressei a Betânia contente por encontrar ali os que eu havia deixado e evoquei as felizes disposições de todos para festejarem meu regresso.

Chegamos à tarde e não obstante a primorosa acolhida de meus discípulos, o abraço efusivo de minha mãe, a emoção das outras mulheres, apercebi-me de um mal-estar geral.

                    “Mas Simão, exclamei, onde está Simão?”

— Marta, inundada de lágrimas, saiu de um aposento contíguo ao que ocupávamos. “Vem, disse ela, pelo menos ele morrerá tranqüilo, visto que te chama.”

Maria, minha pobre pequena Maria, atirou-se aos meus braços gritando: “Salva-o, Jesus, salva-o!”

Arredei Marta e Maria e entrei no quarto de Simão. Meu amigo era presa de uma febre ardente, porém tranqüilizei imediatamente a todos tornando-me responsável pelo seu restabelecimento. Coloquei-me a seu lado, permanecendo assim durante algumas horas² e fiz-me senhor desse delírio, que não anunciava nenhuma lesão mortal. Qualquer outro, conhecedor como eu das ciências médicas, teria obtido o mesmo resultado.

Seis dias depois Simão encontrava-se convalescente e a eficácia de minha cura foi reconhecida com o mesmo entusiasmo que sempre dava a meus atos mais singelos, uma transcendência funesta para minha segurança presente e para minha dignidade de espírito perante a posteridade.

Para celebrar o restabelecimento de Simão, Marta teve a idéia de dar um banquete no qual deviam honrar-me, a mim especialmente, e para dissimular a meus olhos o que havia de ofensivo em tal ato para meus princípios, Marta recordou-me um costume ao qual tínhamos deixado de submeter-nos à minha chegada, devido à tristeza que reinava na casa. Este costume designava o visitante como a um amigo esperado desde muito tempo antes; estavam prescritas demonstrações a que não podia subtrair-se o hóspede, sob pena de desmerecer no conceito do amigo que lhe conferia a hospitalidade.

Éramos muitos neste banquete. Tomaram parte nele vários parentes, alguns notáveis da povoação, todos os meus discípulos da Galiléia, Marcos, José de Arimatéia, minha mãe, Salomé, Verônica, muitas amigas e companheiras de Marta, formando enfim um total de trinta e nove pessoas. Marta, que devia completar o número quarenta, preferiu, segundo seus desejos ao terminar os preparativos, a honra de servir-me, conjuntamente com Maria de Magdala, Joana, Débora e Fatmé.

Maria, irmã de Simão, permanecia quase constantemente detrás dele, o qual estava sentado à minha frente, no centro da mesa. Sua intenção bem decidida era a de contemplar meu semblante, de surpreender meus mais insignificantes gestos, de saborear minhas palavras, estudando todas as graduações de minhas impressões, de abandonar-se finalmente a esse instinto indagador da alma, que despreza as formas exteriores para insinuar o pensamento no pensamento e concentrar o desejo no ideal.

A conversação devia naturalmente girar em torno do motivo da reunião. Meus conhecimentos espirituais, minha dependência divina, exaltaram as imaginações e me vi obrigado a explicar a origem de minha força moral, da maneira de lutar contra a efervescência popular que pretendia descobrir o dom de milagre onde apenas existia a harmonia das qualidades sensitivas da alma com fácil penetração do espírito.

Para melhor convencer a meus ouvintes, passei em revista minha vida de apóstolo e dei a cada um de meus atos, tidos por sobrenaturais, o justo valor que lhes correspondia dentro de minhas afirmações. Demonstrei-me como o Messias preparado para sua missão com sólidos estudos sobre o poder dos elementos, sobre a propriedade das plantas, a fraqueza do espírito humano e o império da vontade. Fiz depender todas as minhas alianças espirituais de uma mesma fonte: a longa vida do espírito, e todas minhas manifestações ostensivas do encadeamento prático e sábio das causas e dos efeitos.

Deduzi da ciência humana os caracteres ostensivos de meus meios curativos e da ciência divina, a felicidade de minha alma, a qual arrojava seus reflexos sobre as almas oprimidas e os espíritos enfermos. Estabeleci finalmente a grandeza de minha fé, a imensidade de minhas esperanças com tão vivas imagens e com tais ímpetos de entusiasmo, que Simão, apresentando-me uma taça cheia, suplicou-me que molhasse nela meus lábios, a fim de misturar o sopro divino com o sopro mortal, e de confundir o salvador com ele, o humilde ressuscitado, honra que ele pedia, graça que receberia com ardente fé, com o amor inextinguível que lhe inspirava o filho de Deus.

Nesse momento e depois de haver contentado a Simão, ouvi como um soluço a meu lado. Voltei-me e vi Maria. Ela se havia separado de seu irmão para acercar-se de quem havia sido chamado salvador; sua gratidão, seu culto se traduziam em acentos entrecortados, em espasmos da voz, e seu espírito sobreexcitado por minhas demonstrações, vinha implorar o apoio de minha força contra a violência de suas ilusões. Tomei a menina em meus braços, sua cabeça inclinou-se e seus cabelos soltos formaram uma moldura de ébano a seu rosto inanimado. Todos os olhares ficaram fixos e os peitos ansiosos, à espera do desenlace de tal crise, cujo termo se anunciou com algumas lagrimas e um fraco rubor da pele. Maria despertou como de um sono, sem compreender a emoção de que havia sido causa, e também com um sentimento de felicidade. Expliquei a Simão a extremada sensibilidade da irmã e indiquei-lhes, com insistência, que não deviam jamais contrariá-la bruscamente em suas excentricidades, a essa alma tão exuberantemente dotada, a esse espírito tão despoticamente governado pela alma.

Apenas tornada a si, Maria desapareceu. Encontrava-me, por conseguinte, em boas condições para falar de um acidente que me sugeriu numerosas observações sobre as naturezas corporais dominadas por visões demasiado fortes da alma e por ambições demasiado fortes do espírito. Em seguida deixei-me transportar, como sempre, por minha volúvel fantasia, falando com frases sentenciosas e proféticas, em evocações de meu espírito para o Ser Supremo.

Havíamos chegado ao final do banquete e ninguém já comia, nem bebia, senão que todos tinham ficado suspensos de minhas palavras.

Elevei-me vagarosamente para o absoluto de meus ideais referentes às alianças dos mundos e dos espíritos. Pouco a pouco senti-me como que separado dos que fraternizavam comigo nesse banquete, vendo-me rodeado dos homens do porvir, e apresentou-se-me através do suceder dos séculos minha emancipação desta terra. Depois, atraído pelo sentimento da atualidade, falei de minha morte, rodeando-a de todas as seduções da glória imortal.

Anunciei-lhes que quase todos me abandonariam, prometi-lhes que os honraria em seus esforços ou os consolaria em seus arrependimentos que os dirigiria para a luz com o auxílio dos dons do espírito para com o espírito e que os elevaria com a persistência de meu amor.

João, como sempre, encontrava-se à minha esquerda e esforçava-se nesse momento por conhecer aos que eu havia querido aludir ao falar de abandono. A este desejo, manifestado em uma forma de pergunta, respondi que a presciência a respeito dos sucessos se torna fácil por meio do esforço do espírito no estudo dos homens e das cousas.

“Muitos me abandonarão, acrescentei, porque muitos são fracos e   medrosos.
“Alguns me renegarão, outros me atraiçoarão, talvez para iludir a  responsabilidade ou para satisfazer seu fastio.
 “Os homens não acreditam suficientemente na minha força de   Messias e a proximidade do perigo os separará de junto de mim.
“Porém, depois de minha morte, os homens de quem falo  compreenderão a covardia de sua conduta e meu espírito se lhes aproximará novamente para continuar a obra que fundei.”

Irmãos meus, eu não assinalei de um modo mais preciso aos que me haviam de abandonar, renegar-me, atraiçoar-me. A razão vô-la dou com minha resposta a esse discípulo tão audaz em seu fanatismo, como exagerado em seus testemunhos de amor. A luz que brilha da ciência espiritual é a guardiã das forças humanas para perseverar nas atividades da alma e no heroísmo do espírito, mas não poderia determinar uma violação da lei que quer que a matéria seja um obstáculo para a visão completa da alma e do espírito. Eu gozava deliciosamente com as honras que me prodigalizavam e, quando Marta derramou água perfumada sobre minhas mãos e que sua jovem irmã me borrifou a cabeça e as roupas, demonstrei-me feliz ao contemplar a felicidade que elas experimentavam. A tarde terminou no meio de uma alegria expansiva, que nada veio turbar.

Irmãos meus, no capítulo treze deste livro passaremos em revista as causas do ódio dos sacerdotes e de minha condenação. Depois continuaremos a exposição dos fatos que precederam a minha morte.

¹ Refere-se naturalmente à doutrina das reencarnações, única que pode explicar o encadeamento dos fatos, dando explicação da maior parte deles, que de outro modo resultariam como as páginas espalhadas de um livro, que, separadamente, nada significam.
    Assim, como se explicam os ódios ou simpatias inatas que se manifestam entre duas pessoas que se vêem pela primeira vez? Por que em uma mesma família, a despeito da lei hereditária e apesar de igualdade do meio e da educação, uns filhos saem perversos, outros virtuosíssimos; uns intelectualmente deficientes, outros chegam a ser gênios, etc.? Só a doutrina das reencarnações explica estas diferenças. Nota do Sr. Rebaudi.


² Este processo eu o tenho empregado e emprego, com êxito, a miúdo. Todos podem igualmente empregá-lo, com a ajuda de um benévolo e intenso desejo de beneficiar o enfermo. Isto não quer dizer que sempre se obterá a cura nem que nossa ação possa ser comparável à do Mestre, porém, bem sempre produz. Nota do Sr. Rebaudi