Passa já da hora o vosso despertar espiritual . . . Saiba que a tua verdadeira pátria é no mundo espiritual . . . Teu objetivo aqui é adquirir luzes e bênçãos para que possas iluminar teus caminhos quando deixares esta dimensão, ascender e não ficar em trevas neste mundo de ilusão . . .   Muita Paz Saúde Luz e Amor . . . meu irmão . . . minha irmã

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Primeira parte - CAPÍTULO III Apostolado de Jesus em Damasco, onde foi respeitado e admirado como profeta. De Damasco passou a Tiro. Espalhou o bem nessas cidades e demais lugares por onde andou, com seus ensinamentos e com seus conselhos particulares. Fala também Jesus de João, o Batista. Livro: Vida de Jesus ditada por Ele mesmo.



     Irmãos meus: Minha permanência em Jerusalém durante seis anos consecutivos põe a descoberto os preparativos de minha missão.
     Aos vinte e nove anos saí de Jerusalém para tornar-me conhecido nas povoações circunvizinhas. Minhas primeiras tentativas em Nazareth não foram coroadas pelo êxito. Dali me dirigi a Damasco, onde fui bem acolhido. Parecia-me necessária uma grande distância de Jerusalém para desviar de mim a atenção dos sacerdotes e dos agitadores daquela cidade. Os sacerdotes já tinham principiado a fitar-me demasiadamente; os segundos me conheciam de há muito tempo e eu tinha que evitar as perseguições nesses momentos e abandonar toda a participação nas turbulências populares.
     Em Damasco não tive aborrecimentos por parte das autoridades governativas nem por parte dos elementos de discórdia, que se infiltram com freqüência no seio das massas, e menos ainda pela indiferença de meus ouvintes. Felicitado e temido como um profeta, levei daí a lembrança de um pouco de bem espalhado em parte com minhas instruções gerais e em parte com os conselhos de aplicação pessoal para as situações de meus consulentes. Abandonei essa cidade na metade do verão e me dirigi para outro centro de população.¹
     Estudei antes de tudo a religião e os costumes dos habitantes e pude convencer-me que a religião pagã, professada pelo Estado, fazia devotos verdadeiros. Os homens dedicados ao comércio não eram nada escrupulosos em matéria religiosa. As mulheres, ignorantes e dominadas pelo louco apego ao corpo, consumiam sua existência na triste e degradante escravidão do luxo e da degradação moral. Os sacerdotes ensinavam o dogma da pluralidade dos deuses. Diversos sábios pregavam sofismas, inculcando a existência de uma Divindade superior que tinha outras inferiores sob sua dependência. Alguns discípulos de Pitágoras humilhavam a natureza humana no porvir, condenando-a a entrar no corpo de um animal qualquer. Alguns honravam a Terra como o único mundo e outros compreendiam a majestade do Universo povoado de mundos. Havia os que divagavam no campo das suposições e os que ensinavam a moral baseando-se na imortalidade da alma, cuja origem divina sustentavam. Havia homens condenados fatalmente para o embrutecimento da Humanidade, fazendo predições e anunciando oráculos. Havia, enfim, homens que adoravam o Sol como o rei da Natureza e o benfeitor de tudo o que existe.
     Querendo dar um desmentido à maior parte destas crenças, tive de limitar-me, a princípio, ao ensinamento da adoção de um só Deus e do cumprimento dos deveres fraternos. Mas, graças aos protetores de que pude rodear-me entre os interessados em sacudir o jugo dos sacerdotes, bem depressa me encontrei em magníficas condições para ensinar a doutrina da vida futura.
     Compenetrado da alta proteção de Deus, minhas palavras levavam a força de minha convicção. Longe de minha pátria e pobre, era procurado pelos homens de boa vontade e as mulheres, as crianças e os velhos disputavam a honra de servir-me e de conversar comigo.
     Um dia em que o calor tinha sido sufocante, achava-me sentado, depois do pôr-do-sol, diante de uma casa em que tinha pernoitado. Densas nuvens corriam para o oeste; aproximava-se o furacão e a gente retardatária passava estugando o passo para chegar às suas casas. Como sempre, eu estava rodeado de crianças e mulheres, e os homens um pouco mais distanciados, esperavam que a chuva, de que caíam já algumas gotas, me obrigasse a entrar na casa. A Natureza, em luta com os elementos, apresentou diante de meu espírito a seguinte observação:

“Em tudo se manifesta a bondade de Deus e os homens terão  que compreender os deveres que lhes impõe o título de Senhores da Terra, com o qual se enfeitam, aproveitando- se das lições que lhes proporciona o Senhor do Universo.
“Compenetrai-vos, irmãos meus, da tempestade que se  levanta em vossos corações quando as paixões os invadem, comparando-a com os esforços da tempestade, que aqui se está preparando.
“Os mesmos fenômenos se põem em evidência. A mão   soberana de Deus é a dispensadora dos dons do aviso, assim como o testemunho das culpas.
“A tempestade muito depressa se desencadeará. Onde estão  os pássaros do céu e os insetos da terra? — Ao abrigo da tempestade, a respeito da qual a divina providência os preveniu.
“Ai dos imprudentes e dos orgulhosos que se descuidaram do  aviso para adormecerem na indolência e desafiar as leis da destruição! Serão atirados para longe pelo sopro do furacão.
“A tempestade que surge em vossos corações, irmãos meus,  anuncia-se com a necessidade de prazeres ilícitos ou degradantes para vossos espíritos. Onde se encontram os homens fracos ou os homens orgulhosos depois do desafogo de suas paixões? — No lugar maldito em que a tristeza do espírito é uma expiação de sua loucura.
“A serenidade do céu, irmãos meus, é a imagem de vossas  almas, quando se encontram livres das negras preocupações da vida. O furacão seguido da plácida harmonia dos elementos é o do homem vencedor de suas paixões.
“Irmãos meus, o furacão tudo estremece, ameaçador...  porém, bendigamos a divina providência! — os pássaros do céu se encontram abrigados. As paixões vos atraem, o furacão está próximo, a tempestade se prepara, mas vós estais advertidos e saireis vitoriosos”.

     A voz de uma jovenzinha respondeu à minha voz:

     “Sê bendito tu, Jesus, ó profeta, que demonstras a bondade de Deus e que derramas a doçura e esperança em nossos corações”.

   A familiaridade de minhas conversações permitia estas formas de admiração, ao mesmo tempo que favorecia freqüentemente as perguntas que se me faziam com um fim pessoal.
       Um instante depois o furacão se desencadeava com todo o seu furor.
     Ficaram-me recordações claras de minhas emoções do tempo em que vivi no meio desse povo, tão diferente dos povos que visitei depois, e não há exemplo dos perigos que só com habilidade evitei ali.
      Em todas as partes o Messias, filho de Deus, se anunciava com palavras severas, dirigindo-se aos ricos e poderosos; em todas as partes o filho de Deus era insultado e desprezado pelos que ele acusava, porém, aí as preocupações e a paciência de Jesus lhe valeram o amor sem limites do povo e o apoio dos grandes.
     Toda a perspicácia de Jesus foi posta em jogo nessa cidade famosa e dos gozos mundanos, no centro dos prazeres e do luxo mais desenfreado, na parte do mundo mais exercitada nas transações, nas trocas, e demais minuciosos detalhes comerciais.
    Jamais Jesus despendeu tanta habilidade e se fez estimado de tanta gente como ali. Jamais o apóstolo foi escutado com tão grande atenção como por esses pagãos de espírito frívolo e submerso nos hábitos de uma existência alegre e amena.
     O triste objetivo de Jesus, humanamente falando, data tão somente do dia em que abandonou os povos distantes para dirigir-se unicamente às populações hebréias, sempre obstinadas em desmenti-lo. Poucos são os homens que têm a coragem de aceitar opiniões que choquem com as da maioria. A maioria dos hebreus acreditava que a autoridade do dogma descansava sobre a autoridade de Deus e que pregar a majestade de Deus independentemente dos vínculos que lhe havia legado a ignorância dos povos bárbaros, era profanar o culto estabelecido, fazendo-o experimentar modificações humanas, desaprovadas por Deus, autor do mesmo culto.
     Depois da purificação de minha vida terrestre e do caminho percorrido nas honras espirituais, eu desço com alegria para narrar-vos esta vida quando minhas recordações já se encontram desembaraçadas da ingratidão humana e participo de uma forma mais ampla dos males da totalidade dos seres, quando repouso no afeto de alguns deles.
     Afastemos, pois, irmãos meus, o que me separa dos dias que passei no meio desse povo, alegremos ainda minha alma com a lembrança da multidão que me rodeava com tão respeitosa ternura e não antecipemos os dolorosos acontecimentos que principiaram a suceder com a minha saída dessa cidade.
     Daqui por diante me encontrareis nesta história como apóstolo, pregando o reino de Deus, pastor que reúne seu rebanho, professor que catequiza seus alunos. Nessa cidade em compensação eu era o amigo, o irmão, o profeta abençoado e consolador.
     Os ricos como os pobres, os ociosos como os trabalhadores, vinham a mim e me acumulavam de amor.
     Demoremo-nos por um momento ainda aí, irmãos meus, e escutai o doloroso relato da morte de uma jovem.
     Eu não a ressuscitei, porém fiz brotar na alma dos que a choravam, a fé na ressurreição e a esperança de tornarem-se a encontrar. Consolei o pai e a mãe, fazendo-lhes compreender a loucura dos que choram pela vida humana ante a suntuosidade da vida espiritual. Incuti em todos os que se encontravam presentes o pensamento do significado de predileção por parte de Deus para com os espíritos que Ele chama para si, na infância ou adolescência, desta penosa estação de nosso destino. Meus amigos mostraram-se ávidos de escutar as demonstrações da natureza humana e da morte, principalmente desta, que deixava em suas almas uma impressão tão dolorosa que destruí-la, rodeando-a de uma auréola de luz, era como que atear uma chama no meio das mais densas trevas e dar movimento a um cadáver. Para as imaginações ardentes e para os caracteres volúveis não convém chamar a atenção sobre um ponto, senão quando este ponto toma grandes proporções, devido à atualidade dos acontecimentos. Escolhia meus exemplos nos fatos presentes e jamais meus discursos foram preparados com antecipação para esses homens, fáceis de comoverem-se, porém difíceis de serem dominados pela atração de uma ciência privada da excitação dos sentidos.
     Ao aproximar-se a morte desta menina, o pai veio buscar-me em meio da multidão e me arrastou até sua casa.
     Já o frio da morte invadia as extremidades e a Natureza tinha abandonado toda a luta. O rosto exaurido revelava um mal profundo e os olhos não viam... a vida fugia pouco a pouco. O silêncio da câmara mortuária só era interrompido pelos gemidos, entre cujo murmúrio de extrema tristeza se confundiam os últimos suspiros da jovenzinha. Aproximei-me então da morta e, passando-lhe a mão pela fronte, chamei-a três vezes com a voz de um inspirado. Nesta evocação não tinha a menor idéia de chamá-la à vida. Os presentes não eram vítimas de uma culposa maquinação, posto que meus atos não podiam significar outra coisa a seus olhos senão esforços para convencê-los da vida espiritual. Voltei-me em seguida para o pai com a alegria de um mensageiro divino:

“Tua filha não morreu, lhe disse. Ela vos espera na pátria dos    espíritos e a tranqüila esperança de sua alma irradia no aspecto deste rosto cálido ainda pelo contato da alma. Ela experimentou nestes momentos o efeito das inexoráveis leis da Natureza, mas a força divina a reanimou e levanta o véu que vos oculta o horizonte.
            . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
“Oh, meu pai, consola-te! — A alegria me inunda, a luz me  deslumbra, a doce paz me envolve e Deus me sorri.
“Meu pai! — Os prados adornam-se de flores, o esplendor do  sol as inclina e murcha, porém o rocio as reanima e a noite devolve-lhe a frescura.
“Meu pai! — Tua filha murchou pelos sóis da terra, porém o   rocio do Senhor transformou-a e a noite da morte devolve-ta brilhante e forte.
“Meu pai! — A mesma alegria te será concedida se repetires  e praticares os ensinamentos de minha mãe. Tu és o pobre depositário dos dias maus; eu em troca sou a privilegiada do Senhor, posto que não merecia sofrer por mais tempo sendo que a Providência distribui a cada um as provações e as alegrias segundo seus méritos”.

     A infeliz mãe estava ajoelhada na parte mais escura do quarto. As pessoas da família a rodeavam e ao aproximar-me afastaram-se.
        “Mulher, levanta-te! disse-lhe com autoridade. Tua  filha está              cheia de vida e te chama.
                     “Não creias nestes sacerdotes que te falam de separação e de                      escravidão, de noites e de sombras. A luz encontra-se  sempre                       onde quer que chegue a juventude pura e coroada de ternura                          filial.
                     “A liberdade se encontra na morte. Tua filha é livre, grande,                feliz. Ela te seguirá de perto na vida para dar-te a fé e a                    esperança. Dirá a teu coração as palavras mais apropriadas             para dar-lhe calor, dará a conhecer à tua alma a reunião e o             doce abraçar-se das almas. Far-te-á conhecer o verdadeiro               Deus e caminharás guiada pela luz da imortalidade.
                     “Homens que me escutais, vós todos que desejais a morte
                      em meio da adversidade e que a esqueceis em meio dos
        prazeres e dos favores terrestres, aproximai-vos deste                       cadáver,   o espírito que o animou curvará sua cabeça sobre            as vossas e o consolo, a força e a esperança descerão sobre            vós.
      “Pai e mãe, declarai publicamente a felicidade de vossa    filha         elevando preces ao Deus de Jesus. Deus, meu querido Pai,             manda a este pai e a esta mãe a prova do teu poder e do teu            amor.”

     Todos os olhares tinham se fixado sobre a morta e a pobre mãe se havia adiantado como que para receber uma resposta desses lábios já para sempre fechados... O último raio de sol que declinava se refletia sobre o leito mortuário e as carnes descoloridas tomavam uma aparência de vida sob esse raio passageiro. O louro cabelo encaracolado formava uma moldura ao redor do rosto da menina e o calor da atmosfera fazia parecer brilhante e agitada essa cabeleira enrolada e úmida, diante da morta. A penosa emoção dos presentes havia-se convertido em êxtase. Eles pediam a vida real à morte aparente e a grandeza do espetáculo inflamava suas imaginações já bastante exaltadas; minhas palavras se converteram em condutores de eletricidade e a gente que enchia o aposento caiu de joelhos gritando: Milagre!
     Tinham visto a morta abrir os olhos e sorrir à mãe. Tinham visto agitarem-se os cabelos com o movimento da cabeça, e a razão sucumbindo em sua luta com a paixão do maravilhoso, engrandeceu minha personalidade naquele momento com intensas manifestações de admiração.
     O milagre da ressurreição momentânea da jovem ficou estabelecido com a espontaneidade do entusiasmo, e o profeta, levado em triunfo, acreditou obedecer a Deus não desmentindo a origem de seus próximos sucessos.
      Pude, desse dia em diante, falar com tanta autoridade, que os sacerdotes se ressentiram afinal e tive de decidir-me a partir. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

     Comecemos a ocupar-nos, irmãos, da preparação de minha primeira entrevista com João alcunhado O Solitário por seus contemporâneos e que os homens da posteridade converteram em um batizador. As aparências de João eram realmente as de um batizador, posto que a mim também me batizou nas águas do Jordão, segundo dizem os historiadores.
     Tenho que esclarecer alguns fatos que têm permanecido obscuros por erro dos primeiros corruptores da verdade.
     João era filho de Ana, filha de Zacarias e de Facega, homem da cidade de Jafa.²  Ele era o “Grande Espírito”, o piedoso solitário, que era distinguido pelo geral afeto, e os homens tiveram razão em fazer dele um Santo, porque esta palavra resume para eles toda a perfeição. Pregava o batismo da penitência e a ablução das almas nas águas espirituais. Havia chegado ao ápice da ciência divina e sofria pela inferioridade dos homens que o rodeavam. Não tinha nada de fanático e a severidade para consigo mesmo o põe a salvo das críticas que poderiam fazer-se-lhe pela austeridade de seus discursos. A fé ardente que o devorava comunicava a todas as suas imagens a aparência de realidade e permanecia isolado dos prazeres do século, cujas vergonhas analisava com paixão. A superabundância da expressão, a hábil escolha das comparações, a força de seus argumentos colocavam João em primeiro plano entre os oradores de então. Mas a desgraçada humanidade que o rodeava levava-o a excessos de linguagem, a terríveis maldições e fanatizava cada vez mais aquele homem forte que compreendia a perfeição do sacrifício.
     Homens de hoje, vós estais desejosos das honras das massas. João o estava das honras divinas. Vós ambicionais as demonstrações efervescentes, ó homens afortunados e encarregados por Deus para honrar as qualidades do espírito e a virtude do coração; ele ambicionava somente as demonstrações espirituais e o amor divino. Vós dais pouco valor à moralidade dos atos quando a suntuosidade externa fala por vós diante dos homens; ele desprezava a opinião humana e não desejava senão a aprovação divina, João habitava uma parte do ano nos lugares mais agrestes e os poucos discípulos que o acompanhavam proviam as suas necessidades. Frutas, raízes e leite constituíam o alimento destes homens e roupas de lã grosseira os defendiam da umidade e dos raios solares. João se dedicava na solidão a trabalhos encomiásticos e os que o seguiam eram honrados com suas admiráveis conversações. Ele meditava sobre a generosa bondade das leis da Natureza e deplorava a cegueira humana. Transportava-se dos exercícios de apaixonada devoção à descrição das alegrias temporais, para os homens sãos de espírito e de coração, e o quadro da felicidade doméstica era descrito por esses lábios austeros com doces palavras e delicadas imagens.
     O piedoso cenobita coordenava os sentimentos humanos e gozava com as evocações de seu pensamento, quando se encontrava longe das multidões.
     O melodioso artista poetizava então os sentimentos humanos e o amor divino emprestava-lhe a inspiração. Porém no centro das humanas paixões o fogoso atleta, o apóstolo devotado à causa e aos princípios religiosos demonstrava-se irritado e desdobrava o esplendor de seu gênio para abater o vício e flagelar a impostura. No deserto, João repousava com Deus e ali via-se o homem com suas íntimas aspirações; na cidade ele lutava com o homem e não tinha tempo de conversar com os espíritos de paz e de mansidão. A principal virtude de João era a energia. A força de vontade levava-o ao desprezo das grandezas e ao olvido dos gozos materiais; guiava-o no estudo dos direitos da criatura e na meditação dos atributos de Deus; fazia-o considerar o abuso dos prazeres como uma loucura e o sábio domínio sobre as paixões como uma coisa bem simples.
     A coragem se encontrava nele, a justiça era o apanágio de sua alma. A elevada esperança das alegrias celestes o atraía para ideais contemplações e a aspiração para o infinito enchia-o de desejos... Ele não compreendia e não podia compreender a fraqueza e as atrações mundanas. Fazia da grandeza de Deus a delícia de seu espírito e a Terra parecia-lhe um lugar de desterro no qual tinha a seu cuidado as almas.

                    “Outro virá depois de mim, dizia ele, e lançará o anátema e a                          reprovação sobre vossa cabeça, ó judeus   endurecidos no                             pecado, ó pagãos ferozes e impuros, crianças atacadas de                             lepra antes de nascer... e vós, grandes da Terra, tremei! A                               justiça de Deus está próxima.”

     A fraude e a depravação dos costumes João atacava-as com frenesi, e a marcha dos acontecimentos demonstrou que ele não respeitava as cabeças coroadas mais que aos homens de condição inferior.
     A centelha de sua voz potente ia buscar a indignidade no palácio e revelava o delito faustosamente rodeado. As plagas da ignorância, as orgias da pobreza encontravam-no com uma compaixão exasperada, que se manifestava com a abundância da palavra e com a dureza da expressão.
     João pedia o batismo de fogo da penitência e queria o estigma da expiação. Pregava, é certo, o consolo da fé; mas era inexorável com o pecador que morria sem haver humilhado seus últimos dias nas cinzas de seus pecados. Ele permanecia uma parte do ano na cidade e a outra no deserto. Já vos dei a conhecer a diferença de humor que se manifestava nele por efeito destas mudanças. Resta-me descrever as abluções e as imersões gerais no Jordão.
     Os judeus escolhiam para estas abluções parciais e para as imersões totais um rio ou um canal, e as leis da higiene eles as associavam com as da religião. O Jordão, na estação do calor, via correr para suas margens multidões inumeráveis, e João descia do deserto para fazer escutar por essas gentes seus discursos graves e ungidos.
      Sua palavra tinha então esse caráter de doçura que ele adquiria sempre na solidão e sua reputação aumentava o interesse das povoações circunvizinhas por praticar as imersões no Jordão.
    João recomendava o dever da penitência e da mudança de conduta depois da observância do antigo costume e estabelecia que a penitência devia ser uma renovação do batismo.
        Com freqüência ele pregava:

“Da vossa lavagem corporal deduzi vossa lavagem  espiritual e fazei submergir vossas almas na água da fonte sagrada. O corpo é infinitamente menos precioso que o espírito e, apesar disso, vós nada descuidais para tratá-lo e embelecê-lo, ao passo que abandonais o espírito na imundície das manchas do mal, da perdição e da morte.
              “Da pureza de vosso coração, da brancura de vossa alma
fazei maior caso e tapai os ouvidos às vãs honras do  mundo.
“Ressuscitai vosso espírito mediante a purificação ao      mesmo tempo que conservais vosso corpo são e robusto
               com os cuidados higiênicos”.

     João falará, ele mesmo, no quarto capítulo deste livro e descreverá nosso primeiro encontro, que teve lugar em Betabara.



¹ Tiro. (O nome deste centro de população foi pedido pela médium.)
² Era um ano mais velho que Jesus.